sábado, 29 de agosto de 2009

INFERNO- CANTO IX





Impedidos de entrar em Dite -- a cidade de Lúcifer --, Virgílio e Dante aguardam o auxílio celestial para concretizar sua intenção. Essa cidade (ou melhor cidadela) abrange os próximos círculos do Inferno, onde estão os condenados por pecados mais graves, de acordo com a escala de valores adotada pelo poeta florentino. Até aqui só foram percorridos os círculos relativos aos pecados da incontinência -- luxúria, gula, avareza/prodigalidade, ira (2º ao 5º círculos; o 1º é o do Limbo). Os próximos vão referir-se aos pecados da violência (7º círculo) e da fraude (8º e 9º círculos).

Amedrontado, a confiança de Dante em seu guia vacila. Pergunta se alguém do primeiro círculo já desceu aos outros círculos do Inferno. Virgílio o tranquiliza, dizendo que ele já desceu uma vez até a Judeca (esta é uma área localizada na região mais funda do Inferno, no nono e último círculo). Virgílio diz que foi até lá a fim de buscar um espírito, atendendo a um chamado de Eritone, aquela “que convocava as sombras para os corpos seus”: chi richiamava l'ombre a' corpi sui- v.24 (segundo Mandelbaum et al., essa feiticeira, na obra do poeta romano Lucano, convocou um espírito do mundo dos mortos para revelar a Pompeu o resultado da batalha de Farsalia) (1).

Naquela alta torre antes avistada, de “cimo incandescente”, na escuridão, Dante vê surgirem três Fúrias, com seus membros e modos femininos. Traziam “hidras (= serpentes) verdíssimas” como cinto e pequenas serpentes por crinas. Elas são as servas de Proserpina, rainha do Inferno, mulher de Pluto. As Fúrias, ou Erínias, citadas são três: Megera, Aleto, Tesífone. Elas estão tintas de sangue, pois se ferem no peito, se batem e gritam. Em vista disso, Dante, receoso, se aproxima mais do guia, buscando proteção. Elas invocam Medusa, para transformar o intruso (Dante) em pedra, caso ele olhe para ela. Querem com isso vingar-se de um outro intruso, Teseu, o qual desceu antes ao Hades para raptar Proserpina. Aprisionado lá, foi depois libertado por Hércules.

Na interpretação do Mons. Pinto de Campos, as Fúrias simbolizam o remorso. Elas são filhas de "Aqueronte, que quer dizer tristeza, ou privação da graça, e da Noite, que quer dizer ignorância. As serpentes em sua cintura e na cabeça sugerem fraudes e enganos. Segundo esse mesmo autor, a Medusa, de “funesta beleza” (daí seu apelo sensual), é uma das três irmãs Gorgones da mitologia grega. Medusa significa esquecimento  (2).

Virgílio manda Dante tapar bem os olhos (caso contrário, nunca mais retornará para cima, quer dizer ficará no Inferno). Não contente com isso, ele próprio põe suas mãos sobre as de Dante (quer assegurar-se assim de que seu discípulo se manterá na correta via). Na sequência, o poeta aconselha o leitor a estar atento ao sentido oculto de suas alegorias:
O voi ch’avete li’ntelletti sani,
mirate la dottrina che s’asconde
sotto ‘l velame de li versi strani. (v. 61-63)

(“O vós que tendes o intelecto são/ observai a doutrina que se esconde/ sob o velame desses versos estranhos”)

Esses versos mostram como Dante é poeta conscientemente engajado na defesa da sua concepção religiosa (católica) do mundo, o que prova a compatibilidade entre a grande poesia e o engajamento a uma causa.

Ouve-se a seguir um estrondo, que estremece as duas margens do Estige. O poeta aqui primeiro faz o registro sonoro e depois relata a ação, situação semelhante à do Canto anterior, em que a aproximação a Dite é anunciada por um “alto lamento”. Esse estrondo é comparado ao da tempestade na floresta, que despedaça ramos e afugenta animais e pastores (note-se a precisão da poesia visual de Dante). O som anuncia a chegada do mensageiro celeste, que vem em socorro da razão humana impotente. Dante faz aqui uma comparação. A chegada desse anjo do céu – quando “mais de mil” almas condenadas, imersas no pântano, fogem -- é comparada à da serpente, que faz as rãs fugirem, dispersando-se na água e buscando abrigo em terra. Como se vê, as imagens de animais retornam intermitentemente nesses Cantos do Inferno.
O enviado celeste cruza o Estige sem molhar os pés, apenas afastando de seu rosto o ar pesado do pântano. E com um toque de vareta abre a porta de Dite, sem encontrar resistência. Verifica-se nessa passagem a ocorrência do maravilhoso, num clima mágico, semelhante ao das histórias infantis...




Em sua fala o enviado do Céu critica a audácia dos demônios e menciona a vontade “cujos fins não podem ser mudados” (i.e. a vontade de Deus. Como já foi dito antes, seu nome não é pronunciado no Inferno). Eles não podem ir “contra os fados”, ou seja, os desígnios divinos. Da mesma forma que Cérbero, representante dos demônios (“vosso Cérbero”), não pôde resistir à ação de Hércules, que o retirou à força do Hades, deixando as marcas das cadeias em seu focinho e pescoço, assim também agora, em Dite, eles não podem opor-se à vontade divina. O mensageiro se retira e os dois entram na cidade de Lúcifer. Dante está curioso para saber como ela é, dentro de seus muros. A menção à sua curiosidade estimula a nossa própria, a respeito do assunto.

Dante olha em torno “e vê por todo lado uma grande planura/ cheia de dor e de tormento” ( e veggio ad ogne man grande campagna, / piena di duolo e di tormento rio.- v.110-111). Compara a paisagem que vê com Arles e Pola, regiões com muitos sepulcros (eram antigos cemitérios romanos) (3), “salvo que o modo aqui era mais amaro” (salvo che ‘l modo v’era più amaro – v.117). É interessante sublinhar que Dante-autor frequentemente recorre ao passado, como nesse caso, ou à mitologia clássica, para produzir no leitor uma sensação de estranhamento equivalente àquela que seria causada pelo “outro mundo”. ..




Entre os túmulos, chamas se espalhavam, deixando-os todos esbraseados.
Tutti li lor coperchi eran sospesi,
e fuor uscivan sì duri lamenti,
che ben parean di miseri e d’offesi. (v.121-123)

(“Os tampos dos túmulos estavam levantados/ e de cada um deles saíam tão duros lamentos/ que pareciam vir de torturados”).

Virgílio informa a Dante quem ocupa o sexto círculo:
E quelli a me: “Qui son li eresïarche
con lor seguaci, d’ogne setta, e molto
più che non credi son le tombe carche.

Simile qui con simile è sepolto,
e i monimenti son più e men caldi.” (v.127-131)

(“Aqui estão os heresiarcas (4)/ e seus sequazes, de todas as seitas;/ esses túmulos estão mais cheios do que pensas./ Aqui igual com igual é sepultado/ e os túmulos estão mais e menos quentes”
(a intensidade de calor varia, certamente, em função da maior ou menor heresia).

E os dois poetas seguem em frente, passando “entre tormentos e altos muros” (tra i martìri e li alti spaldi- v.133).

NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 358
(2) Dante Alighieri- “Obras Completas, v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.-tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.368-369
(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.359

(4) Heresiarca, segundo o dicionário Aurélio, significa “fundador de seita herética”

INFERNO- CANTO VIII



"Dante e Virgílio no Inferno"- Delacroix, 1822

Virgílio e seu discípulo se aproximam de uma alta torre. Em seu topo brilham duas chamas, que uma outra chama responde, ao longe (esse início do Canto é um exemplo do talento de Dante também como narrador, pois consegue, de imediato, prender a nossa atenção relativamente ao que vai ser narrado).

O discípulo indaga a seu mestre, chamado aqui “mar de todo o bom senso” (mar di tutto 'l senno- v.7), sobre a razão desses sinais, e quem os faz, mas Virgílio, como resposta, manda-o apenas observar as águas quentes (que por isso exalam um “fumo”) e sujas do Estige. Nelas logo vem, como consequência daqueles sinais, um pequeno barco, velocíssimo, uma vez que corre mais que uma seta lançada pela corda de um arco. A velocidade desse pequeno barco, numa época em que era inimaginável barco a motor, é certamente um elemento a mais utilizado para acentuar a estranheza do ambiente.
G.Doré
O barqueiro se chama Flégias. Esse é o nome de um personagem mitológico, filho de Marte, cuja filha foi violentada por Apolo. Por isso, ele, irado, ateou fogo ao templo desse deus em Delfos. Flégias assim representa não só os iracundos, que habitam o quinto círculo, mas também os incrédulos que cumprem pena no próximo círculo (1).

G.Doré
O barqueiro Flégias pensa que Dante é mais uma “alma perversa” (anima fella- v.18) que está chegando, mas Virgílio responde-lhe dizendo que ele grita em vão pois os dois poetas só estão ali de passagem. Os versos comparam Flégias frustrado (por não poder levar consigo Dante) à pessoa que foi vítima de grande logro. Os poetas entram na barca, que cede quando Dante entra nela (revelando que ele é o único ali a ter peso, por estar vivo ainda):
Lo duca mio discese ne la barca,
e poi mi fece intrare appresso lui;
e sol quand’io fui dentro parve carca. (v.25-27)

(“Meu guia entrou na barca,/ e depois me fez entrar também;/ só quando eu estava dentro ela demonstrou possuir carga”).

Esse último verso, pseudo-realista, serve para Dante acentuar o clima “sobrenatural” do ambiente. O poeta florentino repete aqui procedimento já usado por Virgílio, na “Eneida” (2) (o Livro VI dessa obra trata da descida de Enéas ao Inferno).

Na travessia do Estige pantanoso, enquanto aquela “antiga proa” vai sulcando as águas (v.29), encontram alguém que interpela Dante. O poeta usa aqui “antiga” porque tal barco data do princípio dos tempos, segundo o Mons. Pinto de Campos, que também se refere à metonímia de “proa” (uso da parte pelo todo) (3).
Dante logo reconhece aquele condenado, apesar de sujo de lama, como os outros iracundos ali imersos. Há aqui certamente um sentido metafórico, o da sujeira moral. No Canto anterior, v.53-54, os versos diziam que os iracundos se fizeram sujos na vida imperceptível que levaram.

O condenado em questão é Filippo Argenti, identificado no v. 61, sobre quem Dante se mostra extremamente hostil, regozijando-se com o seu sofrimento. Dante-autor faz aqui Dante-personagem mostrar-se rancoroso contra Filippo Argenti (por alguma razão não muito clara). Este, que já era falecido em 1300, devia ser um adversário político, um Guelfo Negro, de quem ele guardava muita mágoa. Mostra-se assim rancoroso justamente no círculo a eles reservado. Lembremo-nos, todavia, que ele representa, em termos alegóricos, o ser humano em busca de perfeição, apresentando ainda defeitos morais.

Dante chama Filippo “espírito maldito” (spirito maladetto- v.38) e entende seu castigo como merecido, o que o faz revidar, de modo irado, levantando as mãos para agarrar a borda do pequeno barco (a fim de virá-lo). Virgílio então o empurra, “dizendo: ‘Vai! Junta-te aos outros cães!’- (dicendo: ‘Via costà con li altri cani!’- v.42) (como se vê é recorrente a imagem do cão, associada aos que cumprem pena no Inferno). Virgílio em seguida abraça e beija Dante no rosto, elogiando-o (por achar que o castigo é merecido, i.e. por ter opinião que coincide com o julgamento divino) e criticando Filippo Argenti:
Quei fu al mondo persona orgogliosa;
bontà non è che sua memoria fregi:
così s’è l’ ombra sua qui furiosa. (v.46-48)

(“Aquele foi no mundo pessoa orgulhosa;/ sem bondade que doure sua memória:/ e assim sua sombra aqui é furiosa”).

Em vista disso, Virgílio faz esta observação:
Quanti si tegnon or là sù gran regi
che qui staranno come porci in brago,
di sé lasciando orribili dispregi! (v.49-51)

(“Quantos lá em cima que se julgam grandes reis/ estarão aqui como porcos no lodo,/ de si deixando atrás desprezo horrível”)

Note-se a comparação reiterada dos iracundos com animais. No caso, eles são como porcos no lodo, mais uma sugestão de sujeira moral.

Antes que o barco alcance a outra margem, Dante diz que quer ver Filippo afundar no lamaçal. Virgílio lhe responde que “tal desejo atender é conveniente” (di tal disïo convien che tu goda- v.57). Isso porque, deduz-se, está de acordo com a Justiça Divina (como se verá adiante, mostrar compaixão no Inferno é contrapor-se a essa Justiça). E o desejo de Dante é de fato atendido quando os outros iracundos atacam Filippo:
Dopo ciò poco vid’io quello strazio
far di costui a le fangose genti,
che Dio ancor ne lodo e ne ringrazio. (v.58-60)

(“Pouco depois eu vi/ aquela gente enlameada despedaçá-lo/ e eu louvo e agradeço a Deus por isso”).

Dante mostra-se assim um católico medieval, vingativo, que se regozija com o castigo divino.

Aproximam-se agora da cidade dolorosa (città dolente, cf. Canto III, v.1) de Dite. Mas antes de Virgílio informar isso a Dante, a atenção deste é atraída por um lamento alto (v.65). Note-se que o poeta aqui faz o som do lamento anteceder a tudo o que vem depois, valorizando-o assim, a fim de despertar a curiosidade do leitor e cumprir uma função estética.

Dite é apresentada contendo prédios que o v.70 chama de “mesquitas”, avermelhadas pelo fogo dentro de sua “muralha de ferro”. Mesquitas, como se sabe, são os templos dos muçulmanos, dos “infiéis”, do diabo, portanto, pois na concepção medieval só a religião católica era de Deus. Após chegarem aos altos fossos que circundam essa “terra desconsolada” (terra sconsolata- v.77), aproximam-se da entrada da cidade. Nas suas portas, Dante vê mais de mil demônios, os anjos rebeldes expulsos do Céu, ou melhor, “chovidos do Céu” (da ciel piovuti- v.83), na linguagem usada pelo poeta. Virgílio faz sinal, indicando querer lhes falar. Eles concordam, mas não querem que ele venha acompanhado de Dante, que é mandado retornar por onde veio, sozinho, o que deixa este atemorizado:
Pensa, lettor, se io mi sconfortai
nel suon de le parole maladette,
ché non credetti ritornarci mai. (v.94-96)

(“Imagina, leitor, minha aflição/ diante do som dessas palavras malditas;/ julguei não mais retornar para cá”, i.e. para o mundo dos vivos)

Note-se aí que Dante fala com o leitor, num coloquialismo cativante, tanto mais surpreendente quanto nos lembramos que a “Comédia” data do início do século XIV, cujo formalismo moderado não a distancia do leitor moderno.

Dante pede a Virgílio que ambos retornem dali. Porém Virgílio está confiante, uma vez que ninguém pode impedi-los de avançar. Diz que Dante deve esperar por ele ali mesmo, enquanto vai conversar com os anjos decaídos. Mas a conversa dura pouco, pois logo estes saem correndo para dentro de sua cidade, e batem as portas na cara de Virgílio, que retorna cabisbaixo para onde Dante estava (notar o caráter quase cômico do comportamento desses diabos travessos). Virgílio assegura a Dante que vencerá a prova, pois já vem descendo do céu aquele que abrirá as portas desse reino.

Segundo John Ciardi, o fracasso de Virgílio em avançar se explica pelo fato de que a Razão Humana sozinha não pode vencer a essência do Mal. Precisa do auxílio divino para tanto, na concepção de Dante (4).


NOTAS

(1) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.-tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.309-310
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 358
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2- op cit, p.332
(4) John Ciardi- “Inferno” (tradução para o inglês e notas) in “The Norton Anthology of World Masterpieces”. Fifth Continental Edition. W.W.Norton & Company, p. 796.

INFERNO- CANTO VII





Prosseguindo em sua jornada, Dante e Virgílio encontram Pluto, o guardião do quarto círculo, que atemoriza Dante ao invocar Satã numa linguagem incompreensível (v.1). Mas Virgílio “que tudo sabe” (che tutto seppe- v.3), e entende por isso o que ele disse, manda-o calar-se, pois sua jornada “foi desejada no alto”. Esse Pluto, imaginado por Dante-autor, tem voz desagradável, o focinho proeminente e está cheio de raiva.
Pluto, originalmente, é o rei do mundo subterrâneo, ou do Inferno (o Hades), na mitologia grega. É também o deus da riqueza. Foi certamente por essas associações que Dante chamou assim o guardião do círculo dos avarentos e perdulários, aqueles que não se relacionam bem com a riqueza, cujo valor superestimam ou subestimam.
Virgílio manda-o calar-se nestes termos: Taci, maladetto lupo! (“Cala-te, lobo maldito!”- v.8), o que nos remete ao Canto I, em que apareciam três feras, uma das quais era uma loba magra, que simbolizava a avareza.
Como já ocorrera antes, com Caronte e Minós (Cantos III e V), Virgílio manda Pluto calar-se, pois
Non è sanza cagion l’andare al cupo:
vuolsi ne l’alto, là dove Michele
fé la vendetta del superbo strupo. (v.10-12)

(“Não é sem razão esta jornada:/ ela foi desejada no alto, lá onde Miguel/ vingou-se da arrogante rebelião”)

Por que Dante-autor faz Virgílio lembrar aqui do anjo Miguel, e também da rebelião dos anjos maus? Certamente para marcar posição, para mostrar que seu campo é antagônico ao dos demônios. Os dois poetas tomaram o partido dos inimigos dos demônios.

Com as palavras de Virgílio, a fera cai ao chão. Dante-autor compara essa queda à das velas quando se parte o mastro:
Quali dal vento le gonfiate vele
caggiono avvolte, poi che l’alber fiacca,
tal cadde a terra la fiera crudele. (v.13-15)

(“Tal como velas, infladas pelo vento, caem,/ embaraçadas numa pilha, quando o mastro parte,/ assim caiu à terra a fera cruel”)

No quarto círculo estão assim os avarentos e os perdulários, i.e. os que gastaram de menos ou demais:
Ed elli a me: Tutti quanti fuor guerci
sì de la mente in la vita primaia,
che con misura nullo spendio ferci. (v.40-42)

(“E ele a mim: Todos estes, à esquerda e à direita, foram/ tão estrábicos mentais na vida primeira/ que nenhum dispêndio fizeram com medida”).

Note-se aqui a recorrência de imagem relacionada ao sentido da visão associada aos que cumprem pena no Inferno. Anteriormente, o poeta já usara a imagem de “cegos” para indicar a condição desses desgraçados.

O castigo deles (tanto dos avarentos, à esquerda, que abrangem clérigos, papas e cardeais (v.46), como dos perdulários, à direita) é o de rolarem permanentemente pedras enormes, num semicírculo, sendo que nos dois pontos extremos as duas multidões se chocam, umas nas outras, e se perguntam, “como se latissem” (cf. a associação ao cão- v.43): “Por que entesouras?, por que esbanjas?” (“Perché tieni?”, “Perché burli?”- v.30 ), sendo a primeira pergunta feita pelos perdulários aos avarentos, e a segunda, por estes para aqueles). Sua punição é assim estarem permanentemente “rolando pesos à força de seus peitos” (voltando pesi per forza di poppa- v.27).



Dante não reconhecerá ninguém nesse círculo pois a “vida imperceptível que os fez sujos/ agora os torna irreconhecíveis” (la sconoscente vita che i fé sozzi,/ ad ogne conoscenza or li fa bruni ) ( v.53-54).

Na sequência há uma longa digressão (v.67-96) sobre a Fortuna, essa figura da tradição pagã (esotérica) que Dante incorpora à sua visão teológica. Ela, personificada, é considerada uma “ministra geral e guia”. A Fortuna abarca todos os bens terrenos. Mas eles são vãos,
ché tutto l’oro ch’è sotto la luna
e che già fu, di quest’anime stanche
non poterebbe farne posare uma. (v.64-66)

(“pois todo o ouro que há debaixo da lua,/ ou que já houve, não poderia oferecer repouso/ a nem mesmo uma dessas almas cansadas”, i.e. as que rolam pedra eternamente).

Assim, aqueles bens da Fortuna, usufruídos efemeramente, “os quais a humana gente disputa” (per che l’umana gente si rabbuffa- v.63), o ouro (ou o dinheiro, ou a riqueza), tem seu valor relativizado, quando visto pela ótica da vida eterna, o que Dante lembra aos avarentos, muitos deles clérigos, mais uma crítica do poeta católico à Igreja de seu tempo.

A Fortuna está autorizada por “Aquele cujo saber tudo transcende” (Colui lo cui saver tutto trascende- v. 73) (mais uma forma indireta de referir-se a Deus) a promover mudanças de tempos em tempos na vida das nações e das pessoas no tocante à posse dos bens. Assim, ela provê, julga e mantém seu reino como “as outras inteligências” que regem os céus (1) os deles. Move a sua roda, indiferente às queixas das pessoas quanto às mudanças da sorte:
ma ella s’è beata e ciò non ode:
con l’altre prime creature lieta
volve sua spera e beata si gode. (v.94-96)

(“mas ela, venturosa, isso não ouve:/ feliz, com os outros seres primeiros ,/ move a sua roda e se ufana em sua bem-aventurança).

Dante-autor estabelece, nos versos 73-85, um símile entre os céus -- cujas partes iluminam a terra desigualmente (2) -- com a distribuição desigual da riqueza entre as nações e as pessoas. Essa imagem é dinâmica, pois a distribuição desigual da luz/ dos bens se altera de tempos em tempos. Verifica-se dentro dessa comparação uma outra, pois o juízo dessa mulher, a Fortuna, “está oculto como a serpente na relva” (che è occulto come in erba l’ angue- v. 84). Introduz-se aqui assim mais um animal, os quais vêm sendo sempre associados ao mal  (mesmo os pássaros do Canto V, sobre os amantes Paolo e Francesca, apesar de seu caráter romântico, não deixavam de estar associados ao pecado da luxúria).

Logo adiante, o poeta usa linguagem com conotação religiosa ao afirmar que a Fortuna é frequentemente “posta na cruz” (posta in croce- v.91) pelos que se queixam dela.

Virgílio depois convida Dante a prosseguir em sua descida no Inferno (cuja conformação, como já vimos, é a de um funil, onde níveis mais baixos correspondem a pecados mais graves):
Or discendiamo omai a maggior pieta;
Già ogne stella cade che saliva
Quand’io mi mossi, e ‘l troppo star si vieta. (v.97-99)

(“Desçamos agora a lugar de dor maior; já caem as estrelas que subiam/ quando eu parti, e ficar demais se veda”)

As referências cronológicas indicadas ao longo dos versos até este Canto permitem que Mandelbaum et al .deduzam o seguinte: se Dante deparou-se com as três feras na alvorada da Sexta-Feira Santa de 1300, Virgílio o encontrou ao meio-dia e os dois poetas entraram no Ante-Inferno na noite dessa Sexta-Feira. Estarão no quinto círculo logo depois da meia-noite do Sábado de Aleluia e no sexto círculo às 4 horas da manhã desse Sábado (3).

O quinto círculo é habitado pelos iracundos. Ao entrarem nele, Virgílio diz a Dante, de modo paternal:  "Filho, agora vê/ a alma dos que sucumbiram à ira" ( Figlio, or vedi/ l’anima di color cui vinse l’ira- v.115-116 ). Tais condenados estão todos nus, enlameados, mergulhados num pântano chamado Estige. Batem-se o tempo todo, com as mãos, a cabeça, o peito e os pés, e se mordem, dilacerando as carnes uns dos outros.


Debaixo da água quente e suja desse pântano, que borbulha, há ainda gente que suspira. São os rancorosos, que guardam dentro de si a ira, sem deixá-la vir à tona, como ocorre com eles próprios, aí submersos. Não podem nem completar as palavras inteiras. Mas Virgílio os entende, e assim se refere a eles ao seu acompanhante:
Fitti nel limo dicon: ‘Tristi fummo
ne l’aere dolce che dal sol s’allegra,
portando dentro accidïoso fummo:

or ci attristiam ne la belletta negra.’ (v. 121-124)

(“Presos no limo dizem: ‘Tristes fomos/ no ar doce que se alegra do sol,/ levando dentro acidioso fumo/ tristes ficamos agora nesta lama negra.’”)


”Acidioso” significa o que tem “acídia”, palavra que denota “abatimento de corpo e do espírito” (4). É o caso desses rancorosos, abatidos pelos sentimentos que os dominam. Note-se aqui o hábil efeito de contraste que Dante-autor produz quando faz os rancorosos mencionar, com melancolia, o “ar doce que se alegra do sol” que eles, enquanto vivos, ignoraram, ao guardar para si a sua raiva. Agora, que cumprem pena mergulhados na lama negra do Inferno, o ar não é doce nem há alegria nem sol...

Os dois poetas circundam esse pântano, “com os olhos postos nos que engoliam lama” (con li occhi vòlti a chi del fango ingozza- v.129), e chegam então ao pé de uma torre.

NOTAS

(1) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.-tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.285
(2) Id, ib,  p. 285
(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 357
(4) “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”. 1a ed., Nova Fronteira,s.d.






quarta-feira, 26 de agosto de 2009

INFERNO- CANTO VI




Dante e seu guia estão agora no terceiro círculo do Inferno, onde cumprem pena os condenados “pela danosa culpa da gula” (per la dannosa colpa de la gola- v.53). O castigo que o poeta imagina para eles, em correspondência ao seu pecado, segundo a “lei do contrapasso” é o seguinte: debaixo de pesada chuva, fria e “suja”, de granizo e neve, jazem sobre um solo que cheira mal (pute la terra che questo riceve- v.12). A chuva os faz uivar como cães (Urlar li fa la pioggia come cani- v.19) (cf. o símile). Os condenados, continuamente, se viram de um lado para outro no solo, a fim de se protegerem dessa chuva estranha. Sua situação assim é semelhante à dos porcos, imersos que estão num fétido lamaçal, onde se agitam.

O guardião desse círculo é Cérbero, um personagem mitológico do mundo subterrâneo, que já aparecera nas obras de Virgílio (1). Dante assim caracteriza essa figura temível:
Li occhi ha vermigli, la barba unta e atra,
e ‘l ventre largo, e unghiate le mani;
graffia li spirti, ed iscoia ed isquatra. (v.16-18)
(“Tinha os olhos vermelhos, a barba untada e atra (= negra),/ o ventre largo e garras/ que arranham os espíritos, e esfolam e esquartejam .”)

Dante o imagina um monstro de três cabeças, cujo ladrar é um tormento a mais para os condenados, que gostariam, por isso, de estar surdos (v.33). Assim como os gulosos uivantes foram comparados a cães, também Cérbero é comparado a esse animal (v.28). Quando Virgílio e seu discípulo se aproximam, a fera “escancarou as bocas e mostrou as presas;/ não tinha membro que não se crispasse” (le bocche aperse e mostrocci le sanne;/ non avea membro che tenesse fermo- v. 23-24). O autor da “Eneida” então joga punhados de terra em suas três bocas, o que a faz aquietar-se com tal “alimento” (esse monstro, com seu número excessivo de bocas, e as características referidas acima, nos v. 16-18, é o símbolo alegórico da gula, na opinião do Boccaccio (2) ).


Na sequência, Dante diz:
Noi passavam su per l’ombre che adona
la greve pioggia, e ponavam le piante
sovra lor vanità che par persona. (v.34-36)
(“Pisávamos as sombras em quem batia/ a pesada chuva, e nossos pés calcavam/ suas imagens vazias com aparência de pessoas”).

Todas essas sombras jaziam sobre esse solo fétido, exceto uma, que se ergue para sentar-se e dirigir-se a Dante:
“O tu che se’ per questo ‘nferno tratto,”
mi disse, “riconoscimi, se sai:
tu fosti, prima ch’io disfatto, fatto.” (v.40-42)
( “Ó tu que és trazido a este Inferno”,/ me disse, “reconhece-me, se podes:/ antes de eu ser desfeito, foste feito.” )

O poeta não lembra dele, e pede para que se identifique (ele sofre uma pena “que se há maior, não há tão repugnante”: che, s’altra è maggio, nulla è sì spiacente- v.48)  Trata-se de Ciacco, natural de Florença, cujo nome, na linguagem dessa cidade quer dizer porco”. Mas aparentemente também pode ser nome de família (3). Ele é, portanto, conterrâneo de Dante. Afirma estarem ali todos os que cometeram o pecado da gula. Dante então pergunta sobre o que acontecerá com a “cidade dividida” (entre as facções políticas), Florença (os mortos têm essa capacidade de previsão). O poeta usa aqui um artifício: a ação da “Comédia” se passa, como vimos, em 1300, enquanto ele compõe o poema alguns anos mais tarde, no exílio. Então o que Ciacco prevê (v.64-72) é o que de fato já aconteceu em Florença. Ele prevê que após longas disputas (entre Guelfos Brancos e Negros), haverá derramamento de sangue, e a “parte rústica” (os Brancos) expulsará a outra parte (os Negros). Mas depois, dentro de “três sóis” (ou três anos), a situação se inverterá, e essa última derrubará a “parte rústica”, a qual será subjugada (diz o v.71 que os Negros estarão “mantendo a outra parte debaixo de grandes pesos” : tenendo l’ altra sotto gravi pesi). Os Brancos também serão exilados, inclusive Dante, que era um deles. O poeta nunca mais retornará à terra natal, vivendo sob a proteção de alguns senhores de outras regiões italianas.

Os comentaristas nos ajudam a compreender melhor essa passagem. Após a derrota sofrida em 1289 pelos Guibelinos em Campaldino e Caprona, o partido Guelfo conquista o poder em Florença. Todavia, por volta de 1300, está dividido em duas facções, a dos Guelfos Brancos e a dos Negros. Depois de conflitos sangrentos, ocorre inicialmente a supremacia dos Brancos, a “parte rústica” (la parte selvaggia- v.65), liderada pela família Cerchi (4). O nome dessa parte ou facção se explica porque o chefe dos Cerchi, Vieri, era homem rico “mas de nobreza nova, vindo pouco antes de Ancona, e dos bosques do vale Nievole ou de Sieve” (5) ). Os Negros, por sua vez, eram liderados pela família Donati, de nobreza antiga mas menos rica, cujo chefe chamava-se Corso Donati (6). Eles reconquistam o poder, de fato, “dentro de três sóis” (infra tre soli- v.68), i.e. três anos, em 1302, auxiliados pela interferência do papa Bonifácio VIII (7), daquele que “maneja as velas” (...di tal che testé piaggia- v.69).

Ciacco também afirma que em Florença a “soberba, inveja e avareza são/ as três faíscas que incendeiam os corações” (superbia, invidia e avarizia sono/ le tre faville c’ hanno i cuori accesi- v.74-75).

Dante gostaria de saber qual o destino de algumas pessoas que nomeia—Farinata, Tegghiaio, Jacopo Rusticucci, Arrigo e Mosca. Eles são, segundo Mandelbaum et al. (8), antigos políticos florentinos que viveram antes da divisão dos Guelfos em Negros e Brancos. Ciacco diz a Dante que ele os encontrará mais abaixo, pois “Eles estão entre as almas mais negras” (...Ei son tra l’ anime più nere- v.85). De fato, Dante vai encontrá-los no círculo dos heréticos (Canto X), dos sodomitas (Canto XVI) e dos semeadores de discórdia (Canto XXVIII). Depois, Ciacco pede a Dante que, ao retornar ao “doce mundo”, lembre dele à memória dos vivos. E conclui, dizendo—“mais não te digo e mais não te respondo” (più non ti dico e più non ti rispondo- v.90). Retornando à condição anterior, o seu olhar direto torna-se oblíquo, olha um pouco para o poeta e depois baixa a fronte, deitando-se ao lado dos “outros cegos” (li altri ciechi- v.93). Por que Dante usa essa metáfora? porque os condenados não podem ver (Deus). E não podem ver porque reina ali a escuridão, a ausência da luz (divina).

Virgílio informa a Dante que Ciecco não mais se levantará até o dia em que virá o “Poderoso adversário” (la nimica podesta- v.96), i.e. Cristo, no dia do Juízo Final, quando ocorrerá a ressurreição da carne, ou quando
ciascun rivederà la trista tomba
ripiglierà sua carne e sua figura,
udirà quel ch’in etterno rimbomba. (v.97-99)
(“cada um verá de novo a sua triste tumba/ reaverá a carne e a figura,/ ouvirá aquilo que ressoará no eterno”).

O retorno da alma ao corpo, de acordo com a doutrina aristotélica-tomista, significará maior perfeição da natureza, implicando maior dor aos condenados e maior alegria aos eleitos, como Virgílio explica a Dante no final do Canto (9).

NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 355
(2) Apud Mons. Pinto de Campos, Comentários ao Canto VI in Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2- S.Paulo:Editora das Américas, s.d.- p.250
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p.234 e 257
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.355-356
(5) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p. 258
(6) Id., ib, v.2, p. 258
(7) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p. 260; “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 356
(8) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 356
(9) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p. 263-264







INFERNO- CANTO V





No Canto V, Dante e seu guia visitam o segundo círculo do Inferno, onde estão os luxuriosos. O Inferno possui nove círculos e tem a forma de um funil, estreitando-se à medida que se aproxima do centro da Terra e passa dos pecados menos graves para os mais graves. Essa afirmação permite compreender o sentido dos versos iniciais deste Canto:

Così discesi del cerchio primaio
giù nel secondo, che men loco cinghia,
e tanto più dolor, che punge a guaio (1-3)
(“Assim desci do círculo primeiro/ ao segundo, que área menor cingia,/ maior porém na dor, que punge, fundo”).

Como castigo, as almas dos luxuriosos são transportadas eternamente de um lado para outro, para cima e para baixo, sobre um abismo, pelo vento forte da “borrasca infernal”, girando e debatendo-se nele, a lamentar-se de sua condição. Tal punição corresponde ao modo como esses pecadores (aqui chamados i peccator carnali -v.38) viveram em nosso mundo, arrebatados de um lado para outro pela intensidade das suas paixões. O v.55 menciona explicitamente ao vizio di lussuria dos habitantes do segundo círculo.

O Canto V é um dos mais célebres do “Inferno”. Narra a história trágica de Paolo e Francesca, um amor adulterino da época de Dante, que resultou no assassínio de ambos pelo marido traído, irmão mais velho de Paolo, o qual ainda vivia em 1300 (o ano em que se passa a ação do poema). Mas, diz Francesca no v. 107, “Caïna espera por aquele que nos tirou a vida” (Caina attende chi a vita ci spense). Caína é a área no nono círculo para onde vão os violentos contra seus parentes. Segundo Boccaccio, apud Mons. Pinto de Campos, o casamento entre Paolo e Francesca fora arranjado para superar o conflito entre famílias rivais, a de Guido da Polenta, pai de Francesca, e a dos Malatesta. Embora Giovanni Malatesta fosse "coxo e desancado", Guido o tinha em consideração por ser valoroso e porque viria a ser, após a morte do pai, senhor de Rimini (1).

Logo no início do Canto (v.4 e seg.) temos um exemplo, dentre muitos outros, de como se expressa a imaginação visual de Dante, ao conceber a figura do monstro mitológico Minós como juiz do Inferno (originalmente, na mitologia clássica, Minós era o rei de Creta, “famoso pela sabedoria e severidade de seus julgamentos”, como nos informa nota de Mandelbaum et al. (2), onde também se afirma ser ele, na “Eneida”, juiz do mundo dos mortos). A Minós cabe receber as almas condenadas ao Inferno. Ele é um juiz implacável, "que entende de pecado" (conoscitor de le peccata- v.9). Após ouvir as confissões dos que se apresentam a ele, indica-lhes -- pelo número de vezes que agita a cauda -- o círculo próprio, mais abaixo, correspondente à sua falta.



Por que Minós aparece no Canto V? Certamente porque é aqui que de fato se inicia o Inferno, ou melhor se iniciam os círculos que contêm os seres humanos que cometeram pecados mortais e morreram sem arrepender-se deles, começando pelo da luxúria, que é o menos grave aos olhos de Dante (aliás, nos versos deste Canto, o poeta mostra simpatia e compaixão pelos amantes Paolo e Francesca).

Ao dirigir-se a Dante, sugerindo uma ameaça ("não te iluda a amplidão da porta!": non t'inganni l'ampiezza de l'intrare!- v.20, querendo dizer com isso que é fácil entrar ali, mas difícil sair), Virgílio manda Minós calar-se, afirmando que sua jornada está de acordo com a “vontade lá de cima” (a situação é semelhante àquela do Canto III, quando Virgílio fez calar Caronte, o barqueiro do rio Aqueronte).

No v.28 ocorre uma sinestesia (na realidade a mesma que já apareceu no Canto I, v.60 -- ... là dove ‘l sol tace ) quando Dante diz, referindo-se à escuridão: “Cheguei a um lugar mudo de qualquer luz”, misturando os sentidos da audição e da visão. Esse é o primeiro verso do terceto abaixo, que contêm uma comparação sugestiva do lugar escuro “que mugia” (a impressão causada pelos lamentos daqueles que pecaram pela carne) como o mar “sob a tormenta, quando é assaltado por ventos contrários”:

Io venni in loco d’ogne luce muto,
che mugghia come fa mar per tempesta,
se da contrari venti è combattuto. (v.28-30)

A partir do v. 40, temos duas outras comparações. Os inúmeros luxuriosos (e più di mille ombre- v.67-68), amantes, levados em longas fileiras pelo vento, são comparados aos pássaros, primeiro aos estorvinhos (levados “para cá, para lá, para baixo, para cima”), depois aos grous (estes cantam, as almas condenadas gemem). Para essas almas, “não há mais esperança que os conforte—/ nenhuma esperança de descanso e nenhuma de menor pena”: nulla speranza li conforta mai,/ non che di posa, ma di minor pena (v.44-45). Mais adiante, quando o Canto se concentra em narrar o episódio de Paolo e Francesca, estes serão comparados a pombos, mostrando assim a recorrência, na mente de Dante, da imagem de pássaros associada a esses amantes, condenados a vagar no espaço.

Na sequência, Dante refere-se a diversas personagens (históricas ou míticas) libertinas ou envolvidas em paixões violentas, citadas abaixo, às quais acrescentei uma informação sucinta sobre elas extraída das notas de Mandelbaum et al. A primeira que Dante cita é Semíramis, rainha da Assíria, sucessora de Nino, seu marido, fundador mítico de Níneve (3). A seguir, vem Dido, não mencionada explicitamente, mas identificada de modo indireto nestes versos: “A outra é aquela que se suicidou/ por muito amor, traindo as cinzas de Siqueo” (L'altra è colei che s'ancise amorosa,/ e ruppe fede al cener di Sicheo - v.61-62). Dido, viúva de Siqueo, abandonou o reino de Tiro para fundar Cartago no Norte da África. Ela era apaixonada por Enéas, e cometeu suicídio quando este a deixou para cumprir seu destino, lembrado pelos deuses, de fundador de Roma (4). Citam-se a seguir Cleópatra-- rainha do Egito, amante de Júlio César e depois de Marco Antônio (5)--, Helena, cujo rapto por Páris causou a Guerra de Troia (6), Aquiles, herói grego, que teria sido morto por Páris no templo de Apolo “para onde fora atraído pelas promessas de obter a filha de Príamo, Polixena, se se juntasse aos troianos”(7) de acordo com relatos medievais, diferentes do que diz Homero em sua obra, e Tristão, amante de Isolda, esposa do rei Mark de Cornwall, segundo o romance medieval francês (8).

A partir do v. 73, o Canto se concentra em Paolo e Francesca. Dante dirige-se a eles quando o casal se aproxima, impelido pelo vento, sobre o abismo infernal. A aproximação dos amantes, atendendo ao apelo de Dante, é comparada aos pombos chamados ao “doce ninho” pelo desejo, explicitando-se assim o seu sentido erótico. Virgílio recomenda a Dante que peça para esses amantes se aproximarem em nome de seu amor (v.77-78). Esse é o argumento mais forte a ser utilizado, no caso (em outras ocasiões, como se verá nos próximos Cantos, Dante consegue que os condenados falem com ele prometendo-lhes expandir sua boa fama no mundo dos vivos, quando a ele retornar). A curiosidade de Dante, como salienta Jorge Luís Borges, é saber como Francesca reconheceu que se tratava de amor aquela interação afetiva com o cunhado. Dante lhe diz: "com que e como o Amor permitiu/ que reconhecesses os dúbios anseios?" (a che e come concedette amore/ che conoceste i dubbiosi disiri?- v.119-120). Este, para Borges, é o tema do Canto V: duas pessoas descobrirem que estão apaixonadas, sem saber disso antes (9). Aliás, os três tercetos iniciados pelos versos 100, 103 e 106 iniciam também pela menção ao Amor, considerado como uma pessoa (segundo Mandelbaum et al. esses tercetos lembram as celebrações do amor do século XIII) (10).
Francesca constata assim que Dante deseja conhecer "a primeira raiz" (la prima radice- v.125) de seu amor. Antes de iniciar a sua narrativa ela lhe afirma: “Não há maior dor/ que recordar o tempo feliz/ já na miséria; sabe-o o teu doutor”:

E quella a me: “Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miseria; e ciò sa ‘l tuo dottore.” (v.121-123)

Francesca mostra-se conhecedora da personalidade de Dante pois dirige-se a ele assim: "Ó ser animado pela Graça e pelo Bem" (O animal grazioso e benigno- v.88). Já no Canto II, v.2, a palavra "animal" fora usada como sinônimo de "ser humano", coerente com a concepção filosófica e teológica de Dante, em que o ser humano pertence à classe dos animais, ocupando porém o topo de sua hierarquia. Ela diz que pediria a Deus pela sua paz, se tivesse essa oportunidade, suponho porque reconhece a inquietude de sua alma (Dante-personagem representa o ser humano preocupado com a sua salvação, razão de ele estar inquieto nessa busca do Bem). Mas Francesca não usa a palavra Deus e sim a expressão que aparece nestes versos: "se o rei do universo fosse nosso amigo/ nós pediríamos a ele por tua paz" (se fosse amico il re de l' universo,/ noi pregheremmo lui de la tua pace- v.91-92). Um pouco antes, nos v.80-81, Deus, cujo nome não é pronunciado no Inferno, era referido como consta a seguir, no apelo que Dante faz aos amantes Paolo e Francesca: "Ó almas angustiadas,/ vinde a nós p'ra falar, se Outrem não o proíbe" (O anime affannate,/ venite a noi parlar, s'altri nol niega!).

Francesca assim narra o momento crucial de sua história:

Noi leggiavamo un giorno per diletto
di Lancialotto come amor lo strinse;
soli eravamo e sanza alcun sospetto.

Per più fïate li occhi ci sospinse
quella lettura, e scolorocci il viso;
ma solo un punto fu quel che ci vinse.

Quando leggemmo il disïato riso (v.133)
esser basciato da cotanto amante,
questi, che mai da me non fia diviso,

la bocca mi basciò tutto tremante.
Galeotto fu ’l libro e chi lo scrissi:
quel giorno più non vi leggemmo avante. (v.127-138)

(“Um dia, por passatempo, líamos/ sobre Lancelote—como o amor o subjugara./Estávamos sozinhos, e de nada suspeitando./ Por várias vezes aquela leitura/ fez os nossos olhos se encontrarem, e as faces empalidecerem;/ mas foi um ponto só que nos venceu./ Quando lemos como o riso desejado/ foi beijado pelo amante verdadeiro,/ este, que de mim jamais será apartado, / a boca me beijou todo trêmulo./ Galeoto foi o livro, e quem o escreveu:/ nada mais lemos, nesse dia, adiante.”)




Galeoto é o personagem que aproxima Lancelote de sua amada, Guinevere, esposa do rei Artur, no romance medieval. Segundo John Ciardi, a palavra “Galeoto” além de ser a tradução italiana de Gallehault, também significa “alcovieiro” nessa língua (11). Dante conclui o Canto deste modo:

Mentre che l’uno spirto questo disse,
l’altro piangëa; sì che di pietade
io venni men così com’ io morisse.

E caddi come corpo morto cade. (v.139-142)

(“Enquanto um espírito disse isso/ o outro chorava; de modo que, de dor/ eu desmaiava, como se morresse./ E caí como corpo morto cai.”)

Esse último verso, notável pela sonoridade (aliteração), assemelha-se ao último do Canto III (“e caí como o homem que o sono subjuga”: e caddi come l’uom cui sonno piglia).

NOTAS

1) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- Tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.151-152
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 353
(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, p.353
(4) Id, ib, p.354
(5) Id, ib, p.354
(6) Id, ib, p.354
(7) Id, ib, p.354
(8) Id, ib, p.354
(9) Borges, Jorge Luís- "Sete Noites" in “Obras Completas”, v.III. São Paulo: Globo, 1999- p.235.
(10) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, p 354
(11) Ciardi, John-“Inferno” (tradução para o inglês e notas) in “The Norton Anthology of World Masterpieces”. Fifth Continental Edition. W.W.Norton & Company, p.787. Também o Mons. Pinto de Campos, op cit, p. 231, afirma que “galeotto” significa “alcoviteiro”. Na realidade, afirma que passou a designar todo o alcoviteiro a partir da “Comédia”. Por outro lado, cabe ressaltar, segundo esse mesmo autor, a menção a “riso” no v. 133 em vez de “boca”, que ele considera “um tropo mimosíssimo” (op.cit., p.230). Trata-se, na minha opinião, de um caso de metonímia (definida por Hênio Tavares, op cit, p.386, como “a substituição do sentido de uma palavra pelo de outra que com ela apresenta relação constante”).












INFERNO- CANTO IV





Acordado por um trovão, Dante volta a si e constata que está à beira de um abismo:

Vero è che ‘n su la proda mi trovai
de la valle d’abisso dolorosa
che ‘ntrono accoglie d’infiniti guai.(v.7-9)

("Na verdade eu estava à beira/ de um abismo, um vale doloroso/ por gritos infinitos povoado”).

Ali ele não distingue coisa alguma por causa da escuridão. Virgílio o convida a descer ao “mundo cego” (cieco mondo), assim chamado certamente porque o Inferno é desprovido da luz que vem de Deus.

Dante repara na palidez do seu guia quando se aproximam desse primeiro círculo infernal, o Limbo, habitado pelos pagãos justos, inclusive pelo próprio Virgílio (essa "palidez" imaginada por Dante-autor reforça o clima sobrenatural do contexto em que se situam os dois poetas). Mas Virgílio lhe responde que aquilo que ele toma por temor é na realidade compaixão pelos que estão ali. São pagãos, viveram antes da vinda de Cristo. Não receberam o batismo, “porta da fé” (porta de la fede- v.36) do Cristianismo (Dante usa aqui uma metáfora, assim como usará outra no v.66, quando o primeiro círculo é chamado de “selva ... de espíritos apinhada” :selva ... di spiriti spessi ). Os pagãos, conforme a doutrina católica, permanecem com a culpa do pecado original (1).

Os dois poetas entram então nesse primeiro círculo, "que o abismo cinge”.
Quivi, secondo che per ascoltare,
non avea pianto mai che di sospiri
che l’aura etterna facevan tremare;

ciò avvenia di duol sanza martìri,
ch’avean le turbe, ch’eran molte e grandi,
d’infanti e di femmine e di viri. (v.25-30)

(“Ali, tanto quanto se podia escutar, não se ouviam prantos mas suspiros/ que faziam tremer o ar eterno;/ provinham da dor sem martírio,/ das multidões, que eram densas e grandes,/ de crianças, e de mulheres e de homens.” (cf. o polissíndeto deste último verso).

A punição deles é “viver sem esperança, só com anseio” (che sanza speme vivemo in disio- v.42). Não têm esperança de ascender ao Paraíso, só o desejo. Sua dor, conforme a citação acima, é uma "dor sem martírio" (duol sanza martiri- v.28). Todavia, quando Cristo morreu e subiu aos céus, diz Virgílio, tirou dali Adão, Abel, Noé, Moisés, Abraão, David, Israel (ou Jacó) com o pai (Isaac), seus filhos e Raquel, além de outros, que foram santificados. Mas Virgílio não nomeia Cristo. Ele diz: Io era nuovo in questo stato/quando ci vidi venire un possente,/ con segno di vittoria coronato (“Eu era novo neste estado/ quando vi um ser potente entrar aqui,/ coroado com o signo da vitória”: v.53-54). Como Virgílio morreu em 19 a.C. e Cristo no ano 33, isso aconteceu quando ele estava no Inferno (Limbo) há pouco mais de 50 anos (2).

Prosseguindo em sua marcha, os dois poetas divisam um foco de luz onde se agrupam pessoas de aspecto honrado. Ao chegarem mais perto, ouvem uma voz que saúda Virgílio:

Onorate l'altissimo poeta:
l'ombra sua torna, ch' era dipartita (v.80-81)

("Honrai o altíssimo poeta;/ sua sombra retorna, que antes partira").

Então aproximam-se deles quatro sombras:

Poi che la voce fu restata e queta,
vidi quattro grand’ombre a noi venire:
sembianz’ avevan né trista né lieta. (v.82-84)

(“Depois que a voz se calou/ vi quatro grandes sombras virem a nós,/ de aparência nem triste nem alegre”).

Virgílio informa a Dante que essas sombras são as dos poetas Homero, Horácio, Ovídio e Lucano. Dante-autor revela aqui sua admiração por Homero, afirmando “que ele vem à frente dos três (os outros poetas) como um senhor” (che vien dinanzi ai tre sì come sire- v.87), quer dizer, é o maior dentre eles. Na sequência Dante compara Homero a uma águia:

Così vid'i' adunar la bella scola
di quel segnor de l'altissimo canto
che sovra li altri com'aquila vola (v.94-96)

("Assim eu vi reunida a bela escola/ daquele senhor do canto altíssimo/ que sobre os outros como a águia voa").

Passam a conversar entre si, e um dos poetas saúda Dante com um aceno. Chegam mesmo a convidá-lo a integrar-se ao seu grupo: “eu era o sexto de tais intelectos” (sì ch’io fui sesto tra cotanto senno- v.102) (o quinto, naturalmente, era Virgílio), o que é revelador da altivez de Dante-autor. Ele não era humilde, ou melhor, como diria meu pai, “tinha consciência do próprio valor”, pois se colocou ocupando o sexto lugar, na hierarquia dos maiores poetas da literatura ocidental.

Virgílio e seu discípulo prosseguem, andando em direção à luz, e chegam ao pé de um castelo, “sete vezes cercado de altos muros” (sette volte cerchiato d'alte mura-v.107) e protegido por um rio em torno. Passam por ele “como em solo duro" (Questo passammo come terra dura- v. 109) e depois, por sete portas, juntamente com aqueles “sábios” (os poetas são assim chamados, como já ocorrera com Virgílio, anteriormente), chegando a um prado verdejante dentro do castelo, onde Dante divisa gente “de grande autoridade no semblante” (di grande autorità ne' lor sembianti- v.113), “magnos espíritos” (spiriti magni- v.119), os quais passa a citar, abrangendo personagens históricos e fictícios, mulheres notáveis, filósofos e cientistas.

No v. 106 e seguintes temos uma alegoria: o castelo, circundado por sete muros altos, representa, segundo o Mons. Pinto de Campos (3), a Nobreza humana, própria dos “magnos espíritos” citados, fonte de luz (aqui não da luz divina mas humana, restrita apenas a essa área do castelo no primeiro círculo). Os sete muros seriam as sete virtudes (prudência, justiça, fortaleza, temperança, inteligência, ciência e sapiência, arroladas em nota à tradução de Vasco Graça Moura (4) ). O rio por onde passam como se fosse solo duro é interpretado pelo Mons. Pinto de Campos como o amor à sabedoria (Dante compartilha tal amor com os outros poetas, por isso ele transpõe o rio da mesma maneira que eles) (5). As sete portas, por fim, seriam as artes liberais (gramática, dialética, retórica, música, aritmética, geometria e astronomia (6) ).

Estes são os nobres personagens que Dante afirma ter visto ali: Electra, mãe do fundador de Tróia, de quem descendem Heitor e Enéas, citados na sequência (7); Júlio César; Camila e Pentesiléia, a primeira morta pelos troianos quando estes lutavam contra o rei Latino e a outra, rainha das Amazonas, aliada dos troianos e morta por Aquiles (8); o rei Latino e sua filha Lavínia, que se casou com Enéas após a vitória deste na península italiana (9); Brutus, que expulsou Tarquino, o último dos reis romanos, tornando-se o primeiro cônsul da república (10); Lucrécia, Júlia, Márcia e Cornélia, “quatro exemplos da virtude feminina romana” segundo as notas de Mandelbaum et al.: a primeira se suicidou após ser ultrajada por Tarquino, o que contribuiu para a derrubada desse rei; a segunda, filha de César e esposa de Pompeu, poderia ter evitado a guerra entre eles se não tivesse morrido; Márcia, esposa de Cato de Utica; Cornélia, ou a mãe dos tribunos Tibério e Caio Graco ou a segunda esposa de Pompeu, que com ela casou após a morte de Júlia (11); e, em posição mais afastada, Saladino, sultão do Egito, não cristão mas respeitado pelo Ocidente (12).

Depois, alçando mais o olhar, Dante diz que viu “o mestre dos homens que sabem” (Aristóteles) (vidi’l maestro di color che sano- v.131) e perto dele Sócrates e Platão (essa passagem revela a grande admiração que Dante-autor tinha por Aristóteles, colocando-o em posição mais elevada que os outros. É nesse filósofo que se baseia, como se sabe, a doutrina de S.Tomás de Aquino). Dante viu também outros filósofos ali: Demócrito, Diógenes, Anaxágoras e Tales, Empédocles, Heráclito e Zenão; o médico grego Dioscórides (13); os “míticos poetas gregos” Orfeu e Lino (14); Túlio (ou Marco Túlio Cícero) e Sêneca, aqui considerados como filósofos morais (15), Euclides matemático e Ptolomeu astrônomo, “em cuja teoria geocêntrica se baseia a astronomia medieval” (16), Hipócrates, médico grego, Avicena, médico e filósofo árabe, Galeno, médico grego, Averróis, filósofo hispânico-árabe, comentador de Aristóteles (17), e outros mais, que não vai mencionar, pois seu amplo tema o manda ir adiante: “o que é contado é, frequentemente, menos do que o fato” (che molte volte al fatto il dir vien meno- v.147).

E assim o grupo dos seis poetas se divide em dois. Dante segue Virgílio, que o leva para outro caminho, “onde nada alumia” (E vegno in parte ove non è che luca- v.151), ao contrário do círculo que eles acabam de deixar.

NOTAS

(1) Dante Alighieri- “Obras Completas, v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.-tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.125
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 350
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas, v.2- op cit, p. 137-138
(4) Dante Alighieri- “A Divina Comédia”. Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. São Paulo: Landmark, 2005, p.59 (nota)
(5) Dante Alighieri- “Obras Completas, v.2- op cit, p. 138
(6) Aqui citadas tal como constam em Dante Alighieri- “A Divina Comédia”, op cit, p. 59 (nota).
(7) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 351
(8) Id, ib, p. 351
(9) Id, ib, p. 351
(10) Id, ib, p. 351-352
(11) Id, ib, p. 352
(12) Id, ib, p. 352
(13) Id, ib, p. 352
(14) Id, ib, p. 352
(15) Id, ib, p. 352
(16) Id, ib, p. 352-353
(17) Id, ib, p. 353







INFERNO- CANTO III




Canto III

Dante e Virgílio estão no portal do Inferno, que traz a inscrição famosa:

Per me si va ne la città dolente,
per me si va ne l’etterno dolore,
per me si va tra la perduta gente.
Giustizia mosse il mio alto fattore;
fecemi la divina podestate,
la somma sapïenza e’l primo amore.
Dinanzi a me non fuor cose create
se non etterne, e io etterno duro.
Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate.(v.1-9)

(“Por mim se vai à cidade do sofrimento,/ por mim se vai à dor eterna,/ por mim se vai à gente condenada./ Justiça moveu o meu alto artífice;/ sou obra da divina podestade (*),/ da suma sapiência e amor primeiro./ Antes de mim só existiam coisas eternas,/ e eu duro eternamente./ Deixai toda esperança, ó vós que entrais.”)
----------------
(*) Podestade: “O primeiro magistrado, nas cidades centrais e setentrionais da Itália, na Idade Média” (1)

Note-se a musicalidade de toda essa inscrição, decorrente do refinado jogo fonético das sílabas escolhidas, em que o portal do Inferno, personificado, fala na primeira pessoa e onde estão presentes uma anáfora (repetição de "Per me si va" em v. 1-3), metonímia (a "dor eterna" é sinônimo de Inferno no v. 2) e aliteração (no v. 6, os sons sibilantes ocorrem três vezes).

Dante ouve na escuridão suspiros, choros e gritos, o que o emociona até as lágrimas. Virgílio o acalma, dizendo-lhe que ali é o lugar “daqueles que viveram sem merecer louvor ou execração” (...di coloro/ che visser sanza 'nfamia e sanza lodo- v.35-36). Dante repara numa bandeira, no ar girando, movendo-se rapidamente, sem parar, e atrás dela, uma longa fila de gente. Ele não acreditaria “que a morte tivesse desfeito tantos”(che morte tanta n’avesse disfatta.-v. 57). Compreende que aí estavam os tíbios, que desagradaram Deus e os inimigos de Deus. Não praticaram nem o bem nem o mal, mas só pensaram no seu própio interesse. Iam nus (os condenados sempre estão despidos, tal como Deus os criou e as artes plásticas representam os seres humanos) e aguilhoados por moscões e vespas. Os insetos faziam listras nos rostos deles com seu sangue, e esse sangue, misturado com suas lágrimas, caía a seus pés, onde alimentava vermes repulsivos.

A partir do v. 70, inicia-se outra cena. Dante, olhando além dos tíbios, vê muita gente na margem de um grande rio, e indaga a seu mestre a respeito disso. Mas Virgílio diz que tudo lhe será esclarecido quando chegarem àquela margem. Lá chegando, vem em sua direção, de barco, Caronte, um velho de barbas brancas, que assim se dirige aos condenados que vai transportar para a outra margem, gritando às “almas danadas”, como as chama, estas palavras:

Non isperate mai veder lo cielo:
i’ vegno per menarvi a l’altra riva
ne le tenebre etterne, in caldo e ‘n gelo. (v.85-87)
(“Não espereis mais ver o céu:/ eu venho para vos conduzir ao outro lado,/ à escuridão eterna, ao fogo e ao gelo “).


Em sua resposta, cheia de desespero, os condenados, que “perderam a cor e rangeram os dentes” (cangiar colore e dibattero i denti- v. 101- cf. o contraste desse "cangiar colore" com os “discos ígneos” que circundam os olhos de Caronte, piloto da “lívida laguna”) amaldiçoam Deus, seus pais, “a espécie humana e o lugar e o tempo e a semente” (l' umana spezie e 'l loco e 'l tempo e 'l seme- v.104, um polissíndeto) de sua concepção e de seu nascimento.

Antes disso, Caronte manda a “alma viva “ ali presente (Dante) procurar “outra via, outros portos”. Mas Virgílio intervém, mandando Caronte calar-se, pois a travessia deles foi decidida ”lá em cima”. As almas que estavam ali perdem a cor e rangem os dentes com as palavras do “demônio Caronte” que tem os “olhos como brasas” e as “faces lanosas”. Caronte os faz embarcar a todos, e dá com o remo nos retardatários. Assim que eles se movem pelas águas escuras, já um novo grupo se junta naquela margem do rio. Virgílio explica que são almas que morreram sob a ira de Deus. A justiça divina os impele, de modo que o temor se transforma em desejo. Elas estão ansiosas por atravessar o rio e cumprir a sua pena. Esse rio é o Aqueronte, um dos quatro rios do Inferno. Depois a “imensidão escura” estremece e um redemoinho irrompe da “terra encharcada de lágrimas”, com uma luz vermelha, fazendo Dante desfalecer: “e caí como o homem que o sono subjuga” (e caddi come l’uom cui sonno piglia- v.136).

Dante coloca assim no vestíbulo do Inferno, objeto do Canto III, os tíbios (= mornos; fracos; indolentes) ou oportunistas, aqueles que não tomaram partido na vida, a não ser o seu próprio. Não ganharam o Céu e nem mesmo o Inferno (situam-se por isso em seu vestíbulo, i.e. antes de Dante e Virgílio transporem o rio Aqueronte, que os fará ingressar no Inferno propriamente dito). Não foram bons nem maus. Não foram fiéis a Deus nem tampouco ao Diabo.

Ed elli a me: Questo misero modo
tegnon l’anime triste di coloro
che visser sanza ‘nfamia e sanza lodo. ( v.34-36)
(“E ele para mim: ‘Este modo miserável/ é adotado pelas almas tristes daqueles/ que viveram sem merecer louvor ou execração’ ”)

Virgílio tem por eles esta opinião:

Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, ma guarda e passa. (v.49-51)
(“O mundo não deixará fama de sua vida;/ misericórdia e justiça os desprezam; / não falemos deles; olha e passa.”)

Dante, ao imaginar os castigos infligidos aos pecadores que cumprem pena no inferno, segue a chamada “lei do contrapasso”, que implica atribuir uma punição apropriada ao pecado cometido. Assim, como castigo, os tíbios estarão permanentemente seguindo a bandeira que se move sem parar, de um lado para outro, que não se fixa em nenhum lugar. Isso porque os oportunistas não optam por nada, estão sempre em movimento, não se estabelecem na defesa de alguma tese, alguma idéia, algum partido, representados pela bandeira do compromisso.

Muitos antigos comentaristas, segundo Mandelbaum, julgam que os versos 59-60, sobre alguém “que fez por covardia a grande recusa” (che fece per viltade il gran rifiuto- v.60), referem-se ao papa Celestino V, o qual renunciou ao pontificado cinco meses após assumi-lo, omitindo-se ao exercício de seu papel de reformador da Igreja numa época em que ela era merecedora de muitas críticas. Tal renúncia daria ocasião à ascensão de Bonifácio VIII, odiado por Dante, que lhe reserva um lugar na terceira vala do Malebolge, a dos simoníacos (Canto XIX). Curiosamente, Celestino V era um santo homem, um asceta, que seria canonizado posteriormente (2). O episódio mostra bem a diferença de concepção, a respeito do papel do cristão no mundo, entre Dante e seus contemporâneos, sendo que a do poeta florentino, mais moderna, prenuncia a atitude atual da Igreja participante de nosso tempo. A conclusão de que Dante é um poeta engajado é reforçada pelos versos 107-108 quando ele descreve os condenados "chorando forte, na margem desgraçada/ que espera por aqueles que não temem a Deus (forte piangendo, a la riva malvagia/ ch'attende ciascun uom che Dio non teme). Ele se dirige aqui, na realidade, ao leitor, procurando demovê-lo do pecado pela evocação dos horrores do Inferno... Uma vez ali, a situação será irreversível, e os condenados, “a gente sofredora” não contará mais com o bem do intelecto, i.e. o livre-arbítrio... (le genti dolorose/ c'hanno perdutto il ben de l'inteletto- v.17-18).

Nos v. 22-30, Dante considera as manifestações de tristeza e lamento das primeiras almas que ouve no Inferno como areia quando um furacão redemoinha. Os sons são equiparados a esse elemento físico (areia). Dante materializa assim aquelas manifestações sonoras de dor, torna-as concretas, palpáveis, o que aumenta seu impacto sobre a sensibilidade do leitor:

Quivi sospiri, pianti e alti guai
risonavan per l’aere sanza stelle,
per ch’io al cominciar ne lagrimai.

Diverse lingue, orribili favelle,
parole di dolore, accenti d’ira,
voci alte e fioche, e suon di man con elle

facevano un tumulto, il qual s’aggira
sempre in quell’aura sanza tempo tinta,
come la rena quando turbo spira.

(“Ali suspiros, choros e gritos altos/ ecoavam pelo espaço sem estrelas/ me suscitando lágrimas, mal entrei./ Línguas estranhas, horríveis falas,/ exclamações de dor, acentos de ira,/ vozes agudas e roucas, e bater de mãos,/ produziam um tumulto, que rodopia/ para sempre naquele ar eterno e sombrio/ como areia quando um furacão redemoinha.”)

Estão presentes aqui rimas internas (parole di dolore- v.26) que intensificam a sonoridade dos versos. Tais rimas já ocorreram no v. 10 (parole di colore) e vão ocorrer também nos v.38-39 (ribelli/fedeli). A caracterização do Inferno como l'aere sanza stelle (v.23) -- imagem recorrente na primeira parte do divino poema -- é algo que impressiona o leitor, e atribui maior força ao seu último verso, no Canto XXXIV, quando os dois poetas, ao sair do Inferno, revêem as estrelas: E quindi uscimmo a riveder le stelle (E dali saímos para rever as estrelas-v.139) (para esse efeito também contribui a afirmação categórica de Caronte, ao embarcar as "almas danadas", de que nunca mais elas verão o céu (cf. v.85 citado acima).

Nos versos 112-117 temos uma outra comparação, na realidade, uma dupla comparação: na primeira, Dante associa as almas dos condenados vindos um a um para a barca de Caronte com as folhas que se desprendem da árvore no outono; na segunda, a associação é com o falcão amestrado do caçador, que retorna à prisão a um gesto dele:

Come d’autunno si levan le foglie
l’una appresso de l’altra, fin che ‘l ramo
vede a la terra tutte le sue spoglie,

similemente il mal seme d’Adamo
gittansi di quel lito ad una ad una,
per cenni come augel per suo richiamo.

(“Como no outono as folhas se desprendem/ uma depois da outra, até que o ramo/ vê na terra todos os seus despojos,/ similarmente as más sementes de Adão/ desceram da margem uma por uma/ ao aceno, como um falcão vem, quando chamado.”)

T.S.Eliot, no “The Waste Land” (3), faz alusão nos versos 55-57 do Canto III ao referir-se à gente anônima que vê deslocar-se por uma rua de Londres a caminho do trabalho:

Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.

Os versos do Canto III são aqueles em que Dante-personagem nota vir atrás da bandeira “tão longa fila/ de gente que eu nunca acreditaria/ que a morte tivesse desfeito tantos”:
/.../ si lunga tratta
di gente, ch' io non averei creduto
che la morte tanta n'avesse disfatta (v.55-57).





NOTAS

(1) “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”. 1a ed., Nova Fronteira,s.d.
(2) Dante Alighieri- “Obras Completas, v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.-tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.53-65
(3) T.S. Eliot- “Collected Poems 1909-1962”. Great Britain, Faber and Faber,1986- p.65 e 81 (Notes)