segunda-feira, 21 de setembro de 2009

INFERNO- CANTO XXIX



G.Doré
             O Canto inicia salientando o fato de que Dante se demorava a contemplar a nona fossa, a dos semeadores de discórdia. Virgílio estranha isso, pois o mesmo não ocorrera com relação às outras valas. Enquanto andam, Dante lhe explica que esperava encontrar ali um parente seu, “um espírito do meu sangue” (un spirto del mio sangue- v.20), Geri del Bello. Virgílio manda-o não se preocupar com esse parente “daqui por diante”. Numa imagem sugestiva, Dante-autor faz Virgílio afirmar que o viu lá embaixo, no fundo da fossa, apontando para ele e ameaçando-o com o dedo, enquanto Dante estava entretido, conversando com o senhor do castelo de Hautefort (Bertrand de Born). Dante então lhe explica:

 “O duca mio, la vïolenta morte
che non li è vendicata ancor,” diss’ io,
“per alcun che de l’onta sia consorte,

fece lui disdegnoso; ond’ el sen gio
sanza parlarmi, sì com ‘ïo estimo:
e in ciò m’ ha el fatto a sé più pio.” (v.31-36)

“Ó guia meu, sua morte violenta/ que não foi vingada ainda”, disse eu,/ “por alguém que compartilha da vergonha,/ fez dele desdenhoso; por isso partiu/ sem falar comigo, suponho:/ e isso me fez ter mais piedade dele”.

            Naquela época e lugar, era comum a luta entre famílias, que se prolongava por várias gerações; e os seus membros estavam obrigados a vingar a morte do parente morto. Isso explica a atitude de Geri del Bello, primo de Dante, que ainda não fora vingado. Como ele se envolvera em uma briga com alguém da família Sacchetti, atribuiu-se a esta família sua morte. Mas, posteriormente, um Alighieri o vingaria. Essas informações, como costuma acontecer nas notas aos versos do poema, são fornecidas pelos comentaristas, os atuais baseando-se nos mais antigos (1).

Geri del Bello- G. Doré
             Os dois poetas avançam pelo rochedo-ponte e avistam a décima (e última) fossa do Malebolge, onde estão os falsários, cujos lamentos são tão horríveis que fazem Dante tapar os ouvidos com as mãos. Além disso, eles exalam um mau cheiro insuportável: “/.../ e tal fedor daqui subia/ como costuma sair de membros apodrecidos” (e tal puzzo n’ usciva/ qual suol venir de le marcite membre - v.50-51).

            Dante compara a tristeza da situação dessa fossa àquela da ilha de Egina após a peste, que vitimou todos os seus habitantes e animais, lançada sobre ela por Juno, esposa de Júpiter, enciumada pela relação do marido com a ninfa Egina que deu nome à ilha. Essa história é contada nas “Metamorfoses” de Ovídio (2).

            Na nona fossa, os condenados, com o corpo todo coberto de crostas, assim se posicionavam:

Qual sovra ‘l ventre e qual sovra le spalle
l’ un de l’ altro giacea, e qual carpone
si trasmutava per lo tristo calle. (v. 67-69)

Uns jaziam sobre seu ventre, ou sobre os ombros/ de outro espírito, ou ainda rastejavam/ pela triste estrada.

            Os dois poetas passam por eles, “que nem sequer podiam erguer-se” (che non potean levar le lor persone-  v.72), observando-os.  Dante-autor destaca então  dois dos pecadores, que estavam ali sentados, apoiando-se um no outro. Ele apresenta aqui a imagem mais impressiva do Canto por descrever vivamente uma situação repugnante. Para o florentino (assim como para o Baudelaire de "La charogne" (A carniça) muito tempo depois) o poético não abrange só os aspectos elevados, sublimes, da realidade, mas também esses outros, próprios da condição humana:  

e non vidi già mai menare stregghia
a ragazzo aspettato dal segnorso,
né a colui che mal volontier vegghia,

come ciascun menava spesso il morso
de l’unghie sopra sé per la gran rabbia
del pizzicor, che non ha più soccorso;

e sì traevan giù l’unghie la scabbia,
come coltel di scardova le scaglie
o d’altro pesce che più larghe l’abbia. (v. 76-84)

e não vi jamais manejar a almofaça (*) / moço de estrebaria que seu senhor espera,/ ou que a contragosto fica acordado,
como cada um investia contra si mesmo/ as unhas, pela grande comichão/ que sentiam, pois não havia outro jeito;
e assim desbastavam as crostas/ como a faca tira as escamas da carpa/ ou de outro peixe, com mais largas escamas.

(*) Almofaça, segundo o dicionário Aurélio, significa  “Escova de ferro com que se limpam cavalgaduras”. Em italiano, “stregghia” (3).

G. Doré
            Virgílio pergunta a um dos dois se há ali algum “latino” (= italiano), e em agradecimento pela resposta deseja “que a unha/ te dure eternamente para este trabalho” (se l’unghia ti basti/ etternalmente a cotesto lavoro- v.89-90), aliviando-se assim, sempre, da comichão que sente. A impressão que os versos causam é magnificada pelo fato de Dante colocar-se no lugar do condenado, que busca alívio para o seu tormento com as unhas, e a comparação que faz da ação delas com a faca, ao tirar as escamas do peixe (efeito que é antecipado pela menção à almofaça no cavalo). Casualmente, aqueles dois são italianos. Atendendo, por sua vez, a pergunta que lhe formulam, Virgílio diz quem é e porque está ali. Ao saberem que Dante ainda está vivo, os dois desfazem o apoio recíproco que se prestavam e voltam-se para olhá-lo, assim como outros condenados, que também ouviram isso. Então Dante dirige-se àqueles dois (num padrão típico do poema) perguntando quem são, estimulando-os com a seguinte justificativa:

Se la vostra memoria non s’imboli
nel primo mondo da l’umane menti,
ma s’ella viva sotto molti soli, (v. 103-105)

Para que a vossa memória não desapareça/ das mentes humanas no primeiro mundo,/ mas que ela viva sob muitos sóis
(quer dizer, por muitos anos, uma vez que na época acreditava-se que o Sol girava em torno da Terra (4) )

            Então o primeiro se identifica. Ele é de Arezzo (os comentaristas o identificam como Griffolino de Arezzo) e foi condenado à fogueira pelo bispo de Siena, talvez genitor do ingênuo Albero da Siena, a quem iludiu, tirando dinheiro, com a promessa de ensinar-lhe a voar. Mas não é por isso que ele está na décima fossa, e sim por ter exercido a alquimia no mundo (5). Sabendo disso, Dante diz a Virgílio: “Houve jamais/ gente tão vã quanto a de Siena?” (Or fu già mai/ gente si vana come la sanese?- v.121-122)

            Depois “o outro leproso” (l’altro lebbroso- v.124), que concorda com essa opinião de Dante, se manifesta. Trata-se de Capocchio, “que falsificou metais com a alquimia” (che falsai li metalli con l’alchìmia- v.137). Ele também foi queimado na fogueira pelo crime de alquimia, em que se fingia transformar metais em ouro por meio da química (6). Dante-autor tem a oportunidade de exercer aqui a ironia, pois Capocchio cita várias pessoas que seriam exceções àquela frivolidade apontada por Dante (Stricca, Niccolò, Caccia d’Ascian). Mas estes eram famosos perdulários de Siena, que chegaram inclusive a formar uma sociedade que dissipou o patrimônio de suas famílias (7).


NOTAS

(1) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 961
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p. 386
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p.232
(4) Id., ib,, p. 234  
(5) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 386.
(6) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p.234
(7)  “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 386-387.


Giovanni Stradano

INFERNO- CANTO XXVIII


Maomé- G.Doré
           Dois aspectos singularizam este canto: o primeiro deles é a pujança visual da descrição naturalista que Dante faz dos corpos mutilados daqueles que cumprem pena nesta nona fossa (do oitavo círculo do Inferno). O outro aspecto é a linguagem chula empregada em alguns versos.

            Inicialmente Dante evoca uma série de eventos ocorridos na Apúlia (i.e. na Itália meridional) que produziram muito derramamento de sangue. Ainda que se reunissem todas as vítimas das lutas aí travadas, com seus corpos mutilados, isso não igualaria ao que o poeta diz ter visto na nona “bolgia”, a dos “semeadores de escândalos e de cismas” (seminator di scandalo e di scisma- v.35). As lutas seguintes são citadas rapidamente: a dos troianos (ou seja, dos romanos, descendentes de Eneas) contra outros povos; a “longa guerra/ que de anéis fez tantos despojos” (la lunga guerra/ che de l' anella fé sì alte spoglie- v.10-11), ou seja a segunda guerra púnica, em que Aníbal levou para Cartago uma pilha de anéis de ouro retirados dos romanos abatidos, conforme o historiador Tito Lívio (note-se aqui a maestria formal de Dante-autor que usa um pormenor – o anel, seu acúmulo – para indicar indiretamente toda a magnitude da carnificina); a luta travada entre Robert Guiscard e os gregos e sarracenos; a batalha de Ceprano, em que Manfredo foi derrotado pelas forças de Charles d'Anjou, por ter sido traído pelos barões de Apúlia, e logo depois a  batalha de Tagliacozzo, em que Charles d’Anjou, seguindo o conselho de seu general Erard de Valery, “o velho Alardo” (il vecchio Alardo- v. 18), derrotou Conradin, sobrinho de Manfredo...(1)

            Quanto às vítimas dessas lutas, “ainda que seus membros furados ou decepados/ mostrassem, isso não igualaria/ ao modo da nona vala suja”:

e qual forato suo membro e qual mozzo
mostrasse, d' aequar sarebbe nulla
il modo de la nona bolgia sozzo. (v.19-21)

            Dante vê aproximar-se alguém

rotto dal mento infin dove si trulla.

Tra le gambe pendevan le minugia;
la corata pareva e 'l tristo sacco
che merda fa di quel che si trangugia. (v.24-27)

rasgado desde o queixo até onde se peida.
Por entre as pernas pendiam os intestinos;/ apareciam as vísceras e o triste saco,/ que merda faz daquilo que se engole.

            Trata-se de Maomé, que dirige a palavra a ele. Afirma quem é, e diz que adiante vai Ali, fendido do queixo ao topete. Destaque-se a complementaridade desses dois ferimentos, representativos dos cismas religiosos. Ali, assim como seu sogro Maomé, também criou uma cisão. Enquanto Maomé dividiu o Cristianismo, Ali fez o mesmo, só que no âmbito do próprio Islamismo, pois sua reivindicação do califado não foi aceita por muitos, do que resultou a cisão entre sunitas e xiitas, conforme Mandelbaum et al. (2) ).   

            Maomé diz ainda que atrás dos condenados vem um diabo com uma espada que os mutila novamente, tão logo fecham suas feridas, após eles completarem “a volta da dolorosa estrada”. Ao partir, Maomé pede a Dante, quando retornar ao nosso mundo (“tu que talvez o sol verás em breve”: tu che forse vedra ' il sole in breve- v.56), recomendar a Fra Dolcino prover-se de víveres “para que a neve, o cercando,/ não traga vitória ao novarês”  (segundo os comentaristas, Dolcino liderava uma  seita herética, banida pelo papa, que defendia o comunismo de bens e de mulheres. Ele e seus seguidores refugiaram-se nas colinas perto de Novara, onde resistiram às forças papais. Sitiados, foram obrigados pela fome a render-se. Morreu em 1307, juntamente com sua companheira, ambos queimados vivos na fogueira) (3). Seu destino será essa mesma região do Inferno, reservada aos que criaram cisões, no caso religiosas. A recomendação a Fra Dolcino refere-se a fatos já ocorridos. Dante usa aqui mais uma vez o artifício de tratar o passado como se ainda estivesse por se realizar.   

            Antes de prosseguir, vale a pena destacar o modo como Dante se expressa ao referir-se à despedida de Maomé: as palavras contendo aquela recomendação (que abrangem os versos 55 a 60) são ditas, segundo o poema, enquanto ele erguia um pé e o pousava no solo, o que não corresponde, como é óbvio, ao tempo efetivamente transcorrido para dizê-las. Isso demonstra um aspecto interessante da técnica poética de Dante, ao jogar desse modo com o elemento tempo:  

Poi che l’un piè girsene sospese,
Mäometto mi disse esta parola;
indi a partirsi in terra lo distese. (v.61-63)

Erguendo um pé para partir,/ Maomé me disse estas palavras;/ pousou-o em terra, e se foi.     

            Outro condenado agora se destaca da turba que ali está:

Un altro, che forata avea la gola
e tronco 'l naso infin sotto le ciglia,
e non avea mai ch' una orecchia sola, (v. 64-66)

Um outro, que furada tinha a garganta,/ o nariz cortado até a sobrancelha,/ e não mais que uma só orelha,

            É Pier da Medicina, que semeou a discórdia entre as famílias Polenta e Malatesta (4). Mais uma vez um morto exerce a sua faculdade de antever os fatos terrenos. Pier previne Dante quanto aos “dois melhores homens” da cidade de Fano, “Messer Guido e Angiolello” (Guido del Cassero e Angiolello di Carignano): eles serão lançados do barco e afogados, após serem convidados a parlamentar com o tirano “de um olho só” (Malatestino), senhor de Rimini, cuja vista um companheiro seu detesta. Dante quer saber quem é esse companheiro. Pier então põe as mãos sobre a mandíbula desse seu acompanhante e abrindo-lhe a boca, grita: “Este é ele, mas não fala” (Questi è desso, e non favella. v.96) pois sua língua foi cortada. Trata-se de Curio, que aconselhou César a atravessar o Rubicão e assim avançar sobre a sua própria Roma para combater as forças de Pompeu, iniciando uma guerra civil. A vista de Rimini lhe é amarga, pois essa cidade é próxima do local onde o rio Rubicão (que fazia então fronteira entre a Gália e a República Romana) se lança no Adriático (5).  
Gustave Doré

            Outro pecador que se aproxima tem as mãos decepadas. Ergue para o alto os cotos dos braços e, dirigindo-se a Dante,

gridò: “Ricordera'ti anche del Mosca,
che disse, lasso!, 'Capo ha cosa fatta,'
che fu mal seme per la gente tosca.”

E io li aggiunsi: “E morte di tua schiatta”;
per ch 'elli, accumulando duol com duolo,
sen gio come persona trista e matta. (v.106-111)

gritou: “Lembra-te de Mosca/ que disse-- ai de mim-- 'Uma coisa feita, deve ter seu fim'/ que foi a semente do mal para a gente toscana”.
E eu acrescentei: “E a morte da tua raça”;/ então ele, acumulando dor sobre dor,/ partiu, como pessoa triste e louca

            Com sua opinião imprudente o guibelino Mosca de' Lamberti, em 1215, instigou um assassínio, que teria um trágico desdobramento: renovou o conflito entre famílias guelfas e gibelinas que perduraria por muitos anos (6).
Bertran de Born-Gustave Doré

            Por sim surge a figura mais impressiva de todas que aparecem neste Canto. Diz o poeta:

Io vidi certo, e ancor par ch' io 'l veggia,
un busto sanza capo andar sì come
andavan li altri de la trista greggia;

e 'l capo tronco tenea per le chiome,
pesol con mano a guisa di lanterna: (v. 118-122).

Vi certamente, e ainda parece que o vejo,/ um corpo sem a cabeça andar, como/ andavam os outros da triste turba;
e levava pelos cabelos a cabeça cortada/ que pendia da mão à guisa de lanterna

            Bem debaixo da ponte onde estão os poetas, o tronco ergue a cabeça para aproximá-la de Dante, que assim poderá ouvir melhor as palavras que profere (a imagem é assim um pouco diferente do modo como Gustave Doré ilustrou essa cena). Suas palavras começam assim:  

/.../ Or vedi la pena molesta,
tu che, spirando, vai veggendo i morti:
vedi s'alcuna è grande come questa. (v. 130-132)

Agora vê a pena atroz/ tu que, ainda respirando, visitas os mortos:/ vê se alguma é tão grande quanto esta.

            Na sequência ele se identifica como Bertran de Born, um trovador provençal que semeou a discórdia entre o rei da Inglaterra e seu jovem filho. Ele é comparado a Aquitofel, da Bíblia (II Samuel 17:1-23), que instigou Absalão a revoltar-se contra o rei Davi, seu pai (7).  Conforme os últimos versos do Canto, Bertran, pela “lei do contrapasso”, sofre a punição correspondente à sua falta. Assim como estimulou a separação entre o rei e seu filho, também sua cabeça agora está separada do corpo. Podemos aplicar esse mesmo raciocínio aos pecadores antes mencionados: assim como eles semearam discórdia, quer dizer, cortaram em partes (formando grupos ou seitas) o todo relativo à união das pessoas preexistente, eles são agora, para sempre, retaliados pelos demônios.

NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p.384
(2) Id., ib., p. 384-385
(3) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p.958
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.385
(5) Musa, Mark-- "Inferno", op cit, p. 959
(6) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 385
(7) Id., ib., p. 385. A citação bíblica correta é II Samuel 17:1-23 e não como aí consta (II Samuel 15: 17-23)
Bertran de Born- Salvador Dalí, 1951

Canto XXVIII- Giovanni Stradano








INFERNO- CANTO XXVII



Amos Nattini

            Aproxima-se agora outra chama, habitada, que emitia um som confuso no seu cimo. Dante-autor faz, logo de início, uma comparação desse som com o de um boi siciliano, de bronze, que parecia expressar sua dor aos mugidos. Tratava-se, na realidade, de um instrumento de tortura que, sendo aquecido, assava a vítima dentro dele, e seus gritos de desespero davam tal impressão. Sua primeira vítima fora o próprio ateniense Perillus, que o fizera para o tirano Falaris, de Agrigento, na Sicília. Mas essas informações são dadas pelo comentarista (1), pois Dante não entra em detalhes. Parte do pressuposto de que o leitor já conhece a história...  Essa comparação impressiva, como muitas outras do nosso poeta, é feita nestes termos:

Come ‘l bue cicilian che mugghiò prima
col pianto di colui, e ciò fu dritto,
che l’avea temperato con sua lima,

mugghiava con la voce de l’afflitto,
sì che, con tutto che fosse di rame,
pur el pareva dal dolor trafitto;

così, per non aver via né forame
dal principio nel foco, in suo linguaggio
si convertïan le parole grame. (v.7-15)

Como o boi siciliano que primeiro mugiu/ com o grito daquele – e isso foi justo –/ que o havia modelado com sua lima,/
mugia com a voz do aflito,/ de modo que, apesar de ser de bronze,/parecia estar trespassado pela dor;
assim, por não haver via nem saída/ no fogo, na linguagem deste/ se convertiam as palavras dolorosas.

             A voz da chama depois torna-se mais nítida. O espírito que está nela ouve (mas não vê) Virgílio despedir-se em lombardo de Ulisses e Diomedes. Isso o faz dirigir-se a ele. Pede para que se detenha um pouco e lhe diga qual é a  situação  da sua Romagna natal, se está em guerra ou não (os mortos na “Commedia” só conhecem o futuro, não o presente):

Se tu pur mo in questo mondo cieco
caduto se' di quella dolce terra
latina ond' io mia colpa tutta reco,

dimmi se Romagnuoli han pace o guerra;  (v.25-28)

Se tu acabas de cair neste mundo cego/ daquela doce terra/ latina, de onde carrego toda minha culpa,
diz-me se os habitantes da Romagna estão em paz ou em guerra;

B. di Fruosino- Guido da Montefeltro- ca. 1420

            Virgílio pede a Dante-personagem para lhe responder, uma vez que seu interlocutor é “latino”, i.e. italiano. Dante então lhe diz que não há guerra declarada, mas ela está no coração dos seus tiranos. Faz um comentário (nos versos 36-54) sobre cada uma das cidades da região: Ravenna, Cervia, Forli, Rimini, Faenza, Imola e Cesena, referindo-se a elas indiretamente e explorando as imagens de animais presentes nos brasões de seus governantes. Quanto a Ravenna e à pequena cidade de Cervia, ambas governadas pela família Polenta, a águia de seu brasão de armas (2) dá ao poeta pretexto para referir-se a elas nestes termos:

Ravenna sta come stata è molt' anni:
l'aquila da Polenta la si cova,
sì che Cervia ricuopre co' suoi vanni.   (v.40-42)

Ravenna está como tem estado há muitos anos:/ a águia de Polenta lá está chocando/ de modo a também cobrir Cervia com as suas asas.

            Em outros versos, ele refere-se a “patas verdes” (branche verdi),  “mastim” (mastin) e “leãozinho do ninho branco” (lïoncel dal nido bianco). Menciona na verdade  dois mastins, o velho e o novo, para se referir a Malatesta e seu filho Malatestino da Verrucchio, cruéis senhores de Rimini.

            A propósito, Francesca de Rimini, a amada de Paolo -- protagonistas do episódio narrado no Canto V -- pertencia à família Polenta antes mencionada (3).

            Concluindo sua breve exposição, Dante agora quer saber quem é seu interlocutor. E este diz então que foi soldado e franciscano (já havia dado antes, nos versos 29-30, a localização geográfica mais precisa de suas origens). Por esses dados ele é identificado como Guido da Montefeltro (ca. 1220-1298), mas a exemplo de outros casos seu nome não é citado explicitamente. O leitor atual da “Commedia” precisa recorrer às notas do comentarista para saber de quem se trata, ao contrário, certamente, dos contemporâneos de Dante.... Guido era um nobre guibelino, líder político e militar da região, que no final da vida decidiu entrar para a ordem dos franciscanos. Mas por causa do papa de então veio para o Inferno, para junto dos “conselheiros fraudulentos”, que povoam o oitavo bolsão dos Malebolge, no oitavo círculo. Enquanto vivo ele usou muito de astúcia e estratagemas. Como ele diz nestes versos:

Mentre ch' io forma fui d' ossa e di polpe
che la madre mi diè, l' opere mie
non furon leonine, ma di volpe.

Li accorgimenti e le coperte vie
io seppi tutte, e sì menai lor arte,
ch' al fione de la terra il suono uscie.

Quando mi vidi giunto in quella parte
di mia etade ove ciascun dovrebbe
calar le vele e raccoglier le sarte,

ciò che pria mi piacëa, allor m'increbbe,
e pentuto e confesso mi rendei;   (v. 73- 83)  

Enquanto ainda tinha a forma de ossos e carne/ que minha mãe me deu, meus atos/ não foram de leão, mas de raposa.
Os estratagemas e os caminhos secretos,/ todos eu conheci, e tanto empreguei as suas artes/ que minha fama chegou aos confins da terra.
Quando me vi chegar àquela idade/ em que cada um devia/ baixar as velas e recolher os cabos,
aquilo que antes me aprazia, agora me enfastiava,/ e arrependido confessei as minhas culpas.

            Notar a recorrência da menção aos animais, e seu valor simbólico, nos versos da “Divina Comédia- Inferno”.  Guido aqui é associado à raposa e não ao leão, pois usou mais da astúcia e fraude do que da força (4).   

            Dada essa sua característica, o “princípe dos novos fariseus” (Lo principe d’i novi Farisei), como Bonifácio VIII é chamado no v. 85, lhe pediu conselho para aniquilar os Collonas, “senhores feudatários papais de Palestrino /.../ e Cardeais ao mesmo tempo”, seus inimigos, que se retiraram para Palestrino (ou Penestrino)  “onde se fortificaram para resistir às armas papais”, nas palavras do Mons. Pinto de Campos (que certamente por  “esprit de corps” faz a defesa de Bonifácio VIII...) (5). A família Collona era rival da família Caetani do papa, e seus membros questionavam a validade de sua assunção ao sumo pontificado, após a renúncia de Celestino V, aliás mencionado indiretamente no v.105 (já fora mencionado antes, no Canto III). Guido então, amparado na afirmação do papa de que lhe absolvia por antecipação, lhe dá este mau conselho: “muita promessa e pouco cumprimento” (lunga promessa con l' attender corto- v. 110).  Com a rendição dos adversários, o papa não cumpriu o que prometera  e arrasou Penestrino...(6)

            Guido morreu em 1298, dois anos antes da época em que se passa a ação do poema. Após a sua morte, conforme os versos, “Francisco” vem até ele (o santo fundador da ordem religiosa pela qual optou), mas um “negro querubim” (neri cherubini- v. 113) reclama seu direitos sobre Guido, pois ele deu “conselho fraudulento” (consiglio frodolente- v. 116), afirmando, na sua argumentação:   

ch' assolver non si può chi non si pente,
né pentere e volere insieme puossi
per la contradizion che nol consente.  (v. 118-120)

não se pode absolver quem não se arrepende,/ nem arrepender-se e querer ao mesmo tempo/ pois a contradição não o consente.

            Assim, arrepender-se do pecado e continuar querendo pecar é uma contradição em termos. Por isso o diabo, apoderando-se de Guido, conclui com esta observação irônica:  “Talvez/ tu não pensavas que eu era um lógico!” (Forse/ tu non pensavi ch' io löico fossi!- v.122-123

Um diabo lógico- Dalí, 1951 
            Depois Minós, como usualmente faz no Inferno, indica, pelo número de vezes que sacode a cauda, para onde deve ir o condenado. No caso de Guido ele a agita oito vezes, indicando assim o oitavo círculo, e a oitavo fossa... 

            Os dois poetas seguem em frente e de um rochedo avistam a próxima fossa, a dos semeadores de discórdia.   
  
            
NOTAS


(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 382
(2) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 953
(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.382
(4) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p.135
(5) Id., ib, p. 137
(6) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 383-384

INFERNO- CANTO XXVI


Gustave Doré

            O Canto XXVI inicia com Dante dirigindo-se ironicamente a Florença, a quem ele manda exultar, pois, além da terra e do mar, seu nome se expande também pelo Inferno (ele acaba de constatar, conforme o Canto anterior, cinco nobres florentinos na fossa dos ladrões). Mas “se próximo ao amanhecer se sonha o vero” (Ma se presso al mattin del ver si sogna- v.7), conforme a crendice popular, logo cairão sobre sua cidade natal os males previstos, antes mencionados. Dante “como poeta do mundo secular” (Auerbach) incorpora tal crendice a seus versos, tornando-os assim mais próximos do gosto do povo de sua época (lembremo-no que ele sempre quis essa aproximação e tal desejo o levou a escrever a “Commedia” na linguagem falada pelo povo, e não no latim dos eruditos, o que é coerente com o engajamento de sua poesia).

            Os dois poetas prosseguem a sua árdua jornada, pelas escarpas e rochas, e Dante chega a um lugar, no alto do rochedo, em que pode ver o fundo da oitava fossa, que é a dos “conselheiros fraudulentos”. Dante compara então as chamas que ele viu brilharem lá embaixo com os vaga-lumes que o campônio vê do alto do monte, no fundo do vale, na noite de verão.
            A essa comparação segue-se logo outra, inspirada num episódio da Bíblia (II Reis, 2:23-24; 11-12) (1): as chamas são como aquelas que o profeta Eliseu viu quando seu mestre Elias subiu aos céus num carro de fogo:

E qual colui che si vengió com li orsi
vidi 'l carro d' Elia al dipartire,
quando i cavalli al cielo erti levorsi,

che nol potea sì con li occhi seguire,
ch' el vedesse altro che la fiamma sola,
sì come nuvoletta, in sù salire:

tal si move ciascuna per la gola
del fosso, ché nessuna mostra 'l furto,
e ogne fiamma un peccatore invola. (v.34-42)

E como aquele, vingado pelos ursos,/ viu o carro de Elias ao partir,/ quando os cavalos rumaram para o céu,
sem poder segui-lo com os olhos,/ não viu outra coisa senão uma só chama/ subir, como uma nuvenzinha:
assim se move cada chama pela garganta/ daquele fosso; nenhuma mostra o furto,/ e toda chama um pecador envolve.

            “Aquele vingado pelos ursos” é Eliseu. Segundo o Livro dos Reis, um grupo de  rapazinhos  que escarneceram dele foram mortos por uns ursos que saíram da floresta (Dante explora aqui a mitologia bíblica assim como mais à frente, neste mesmo Canto, vai explorar a mitologia greco-latina, um recurso recorrente na composição de seu grande poema).

            Cada chama aqui abrasa um pecador. Essa é a punição que os maus conselheiros recebem no Inferno. Ao se aproximar uma chama bipartida, ou “chama cornuda” (fiamma cornuta- v. 68), Dante quer dirigir-se a ela, mas Virgílio o impede, reservando para si tal papel, pois ali estão dois gregos, Ulisses e Diomedes, que “talvez se esquivem de te responder”. Segundo o Mons. Pinto de Campos, os gregos, conscientes de sua superioridade cultural, eram altivos e consideravam os outros povos bárbaros. Mas Virgílio, que os enaltecera na “Eneida”, estava em melhores condições do que Dante para manter tal diálogo...(2).

Amos Nattini
            Esses dois incorreram no pecado punido na oitava fossa porque:

1) durante a guerra de Troia, conceberam o estratagema do grande cavalo de madeira, que permitiu a entrada nesta cidade, à noite, dos soldados gregos nele escondidos, o que possibilitou a derrota dos troianos; isso implicou também na fuga de Eneas e seus companheiros de Troia, na Ásia Menor, para se estabelecerem na península itálica, onde mais tarde surgiria Roma e seu império. Nos versos abaixo Ulisses e Diomedes, encerrados na mesma  chama, lamentam  esse fato:

e dentro da la lor fiamma si geme
l’agguato del caval che fé la porta
onde uscì de’ Romani Il gentil seme (v. 58-60)

 “e dentro de sua chama eles lamentam/ a fraude do cavalo que foi a porta/ por onde saiu a gentil semente dos romanos

2) usaram de artifício para convencer Aquiles a ir com eles para a guerra, fazendo-o abandonar mulher e filho; em consequência disso, Deidamia, filha do rei Licomedes da ilha de Skyros, morreu, e “por ele ainda chora”; Ulisses disse a Aquiles que, segundo o oráculo, Troia não poderia ser tomada sem a sua participação mas não lhe disse que ele pereceria nessa guerra, conforme o mesmo oráculo (3);  e

3) furtaram (e levaram para Argos) o Paládio, uma estátua de Pallas Athena, a deusa protetora de Troia, que garantia a sua integridade enquanto permanecesse na cidade (4). O único verso que fala disso, deixando subentendido o que acabo de dizer, é o v.63: “e pelo Paládio suportam a pena” (e del Palladio pena vi si porta), o que mostra bem a concisão dos versos de Dante, nos quais, frequentemente, estão pressupostas as histórias que envolvem os personagens neles citados, míticos ou não, razão por que as notas são necessárias ao leitor moderno, para a melhor compreensão do poema.

            Virgílio quer saber daquela chama como foi o fim de Ulisses. A chama tremula e sua ponta, movendo-se como um língua, começa a falar (como disse alguém, a grande arte é insólita, bizarra). Ulisses então passa a relatar a sua história, a partir do v. 90, que se estende por todo o restante do Canto, até o seu último verso (v.142), consistindo num dos momentos mais belos do poema (esse relato de Ulisses não vem de Homero, para quem Ulisses retorna à ilha grega de Ítaca, aí falecendo. Dante segue outra tradição, conforme mostra o Mons. Pinto de Campos (5) ). Ulisses afirma que depois que fugiu da feiticeira Circe, nem o amor pelo filho e por Penélope nem a compaixão pelo pai

vincer potero dentro a me l' ardore
ch' i ' ebbi a divenir del mondo esperto
e de li vizi umani e del valore; (v.97-99)

puderam vencer dentro em mim o ardor/ que eu tive de ganhar experiência do mundo/ e dos humanos vícios e valor;

            Assim a ânsia por ampliar a sua experiência do mundo é mais forte que o apelo da vida tranquila que poderia levar no seio da família. Lança-se então ao mar (Mediterrâneo), com os poucos companheiros que nunca o abandonaram. Percorre as duas costas, de Espanha e de Marrocos, e chegam, já velhos e tardos, “àquela foz estreita/ onde Hercules estabeleceu os seus marcos(/.../ a quella foce stretta/ dov' Ercule segnò li suoi riguardi- v.107-108) (as Colunas de Hércules, ou seja, o Estreito de Gibraltar), limite para os navegadores do mundo antigo. Além desse ponto, ninguém ousava ir e enfrentar os perigos de um mar desconhecido e misterioso. Mas Ulisses faz uma convocação àqueles companheiros fiéis para fazerem a viagem temerária:

'O frati', dissi, 'che per cento milia
perigli siete giunti a l' occidente,
a questa tanto picciola vigília

d' i nostri sensi ch' è del rimanente
non vogliate negar l' esperïenza
di retro al sol, del mondo sanza gente.

Considerate la vostra semenza:
fatti non foste a viver come bruti,
ma per seguir virtute e canoscenza.' (v.112-120).

'Ó irmãos', disse, 'que após cem mil/ perigos alcançais o ocidente,/ a esta tão breve vigília
dos sentidos remanescente/ não negueis a experiência/ do mundo desabitado, além do sol.
Considerai a vossa semente:/ não fostes feitos para viver como brutos/ mas para buscar virtude
 e conhecimento'

            Ulisses expressa aqui uma concepção sábia quanto à finalidade de nossa vida, que é breve por natureza. Devemos vivê-la orientados pelo bem (pela virtute) e pela busca da verdade (ou do conhecimento, canoscenza, do mundo). Isso poderia servir de lema para os cientistas do mundo contemporâneo, esses “maus conselheiros”, que assessoraram aqueles que nos governam a desenvolver, por exemplo, armas nucleares, o que já afetou e poderá ainda afetar a vida de muitas pessoas, representando um risco permanente para a humanidade...                   

            Uma vez tomada a decisão temerária, os navegadores voltam então a proa da nau para o oeste e vão em frente: “dos remos fizemos asas no vôo louco” (de' remi facemmo ali al folle volo- v.125), sempre seguindo o lado esquerdo, i.e. costeando o continente africano (aquilo que os audazes navegadores portugueses fariam muito mais tarde. Aliás, há quem acredite que Ulisses foi o fundador de Lisboa (6), cujo antigo nome deriva do seu-- Olissipo). Ultrapassando o equador, à noite veem as estrelas do polo sul e já não mais as do polo norte. Após navegarem cinco meses avistam ao longe, exultantes, uma montanha muito alta. Mas a sua alegria dura pouco, pois dali vem um furacão que faz o barco girar três vezes. Na quarta, diz Ulisses, a força do vento ergue muito a popa e impele para o fundo a sua proa, “até que o mar fechou-se sobre nós” (infin che 'l mar fu sovra noi richiuso- v.142).

            A montanha muito alta avistada no hemisfério sul (nele acreditava-se no tempo de Dante que só houvesse água) é a do Purgatório, o ponto antípoda de Jerusalém, localizada no hemisfério norte (7).


NOTAS

(1) The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p.381
(2) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 71 e 83-84
(3) Dante Alighieri- “Inferno”- tradução para o inglês e notas de Henry Wadsworth Longfellow. New York: The Modern Library,  2003, p. 283
(4) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 950
(5) Dante Alighieri- “Obras Completas”, op cit, v. 4, p. 46-47
(6) Id., ib, p. 47
(7) Musa, Mark-- "Inferno", op cit, p. 952


Anônimo- Naufrágio de Ulisses- 1390


W.Blake- A fossa de Ulisses

INFERNO- CANTO XXV


Gustave Doré


            Este Canto apresenta-se essencialmente descritivo, sem diálogos, diferente de outros da “Divina Comédia”. Sua pujança visual, não estática mas dinâmica, é tão extraordinária que nem mesmo as ilustrações dos artistas a ele relativas conseguem captá-la. Na maior parte do tempo, o Canto XXV concentra-se na transformação de pecadores do sétimo bolsão (o dos ladrões) do círculo oitavo em serpentes, e vice-versa. Possivelmente, foi por essa sua singularidade que Machado de Assis o escolheu para traduzi-lo, em “terza rima”, para o português. O resultado alcançado pode ser lido no seu livro de poemas “Ocidentais”.

            O Canto inicia por um gesto obsceno e blasfemo: Vanni Fucci faz figas a Deus, no que é imediatamente atacado pelas serpentes. Sobre esse nativo de Pistoia, Dante admira-se com a sua soberba:

Per tutt ' i cerchi de lo 'nferno scuri
non vidi spirto in Dio tanto superbo,
non quel che cadde a Tebe giù da' muri. (v..13-15)

Em todos os círculos escuros do Inferno/ não vi ante Deus espírito tão soberbo,/ nem aquele que caiu dos muros de Tebas  (i.e. Capaneu, presente no Canto XIV)

            Vanni Fucci foge e é perseguido pelo centauro Cacus, que carrega na garupa muitas serpentes e nos ombros um dragão “com as asas abertas”. Cacus está ali, e não junto aos outros centauros, porque também é ladrão. Roubou o rebanho de Hércules e por isso foi morto por este:

onde cessar le sue opere biece
sotto la mazza d'Ercule, che forse
gliene diè cento, e non sentì le diece. (v.31-33)

suas obras más cessaram/ debaixo da maça de Hércules, que talvez/ lhe deu cem golpes, e ele já não sentiu o décimo

Amos Nattini- Inferno XXV
            Depois aproximam-se dos poetas três espíritos. Dante ouve um deles dizer aos outros: “Cianfa, onde terá ficado?” (Cianfa dove fia rimaso?- v. 43). Segundo o Mons. Pinto de Campos -- cujos comentários, de modo geral, se baseiam nos antigos comentaristas italianos da “Divina Comédia” -- esses três espíritos, ou melhor cinco, se adicionarmos Cianfa e Francisco de’ Cavalcanti, ora sob a forma de serpentes, pertenciam a nobres e ricas famílias de Florença. Ocuparam cargos importantes da república florentina, “e por fraude cometeram grandes furtos, com tal astúcia praticados, que porventura foram atribuídos a outros” (1).

            Dante autor, antes de prosseguir, previne o leitor, em seu agradável coloquialismo:

Se tu se' or, lettore, a creder lento
ciò ch' io dirò, non sarà maraviglia,
ché io che 'l vidi, a pena il mi consento. (v. 46-48)
Se tu, leitor, és agora lento em crer/ no que eu direi, não é causa de admiração/ pois eu, que o vi, mal posso aceitá-lo.

            Enquanto o poeta os observa, uma serpente “com seis pés” se lança sobre um deles, enlaçando-o completamente, pelo ventre, braços e pernas, se apegando tanto a ele “como se fossem formados de cera quente” (v.61), transformando-os, de modo que

né l' un né l' altro già parea quel ch' era:

come procede innanzi da l' ardore,
per lo papiro suso, un color bruno
che non è nero ancora e 'l bianco more. (v.63-66)

nem um nem outro parecia já aquilo que era antes:
assim o calor do fogo produz/ num papel, que arde, uma cor escura/ que não é negro ainda, e o branco morre

            O espírito sobre quem a serpente se lançou é identificado, no v.68, como Agnel (ou Agnello de' Bruelleschi). A serpente é, na realidade, Cianfa, transformado (pertence à família Donati) (2). Ambos se fundem numa só matéria amoldável, como a cera quente, formando um “sujeito monstruoso” (3).

            A partir do v. 79 descreve-se outra metamorfose. Uma “serpentezinha acesa” (serpentello acceso- v.83) ataca um dos dois espíritos remanescentes (mais adiante, no v. 140, ficamos sabendo que se trata de Buoso dos Abatis (ou dos Donatis) (4). Perfura-lhe o ventre, “onde primeiro tomamos alimento” (quella parte onde prima è preso/ nostro alimento- v. 85-86), i.e. o umbigo. Nesse ponto, Dante, usando um recurso retórico, manda calar-se Lucano -- que na “Farsália” escreveu sobre Sabello e Nassidio, vítimas de picadas de serpentes -- e também Ovídio, que nas “Metamorfoses” refere-se a Cadmus e Aretusa, ele transformado em serpente e ela em fonte. Manda os dois se calarem porque quer relatar os acontecimentos fantásticos que presenciou. E faz uma longa descrição (v.103 a v.141) da transformação da serpente em homem e do homem em serpente. Descreve como se formam, na serpente, os pés, a pele, os braços, o membro viril, as orelhas, o nariz, os lábios, os pelos, até ela transformar-se em homem. Descreve paralelamente como este encolhe os pés, perde a junção das pernas e coxas, cria cauda, sua pele se endurece, os braços entram nas axilas, seus pés se encurtam, seu membro cinde-se em duas partes formando os pés traseiros, perde os pelos do corpo, alonga o rosto para formar o focinho, recolhe as orelhas, sua língua se biparte, enfim, adquire todas as características da serpente...

            No v.148, Dante identifica o terceiro espírito, aquele que não havia se transformado (ainda). Seu nome é Puccio Sciancato (da família guibelina de Galigai) (5). Além disso, nesse final do Canto, ficamos sabendo que a serpentezinha mencionada acima era na realidade Francesco de' Cavalcanti, conhecido como Guercio, que há pouco readquiriu (temporariamente) a forma humana enquanto Buso, o atingido anteriormente, torna-se agora serpente. Franceso é identificado no último verso, que diz: “o outro era aquele que te fez, Gaville, chorar” (l' altr' era quel che tu, Gaville, piagni).  Após ele ter sido morto por gente dessa cidadezinha, localizada perto de Florença, seus parentes o vingaram, matando muitos dos habitantes de Gaville (6).

            Na interpretação de Ciardi, assim como os ladrões em nosso mundo despojaram os outros de seus bens, também no Inferno seus corpos são constantemente tirados deles. E eles devem roubar a forma humana de algum outro pecador, oscilando constantemente entre a condição de homem e de réptil (7).


NOTAS

(1) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 7 e 36
(2) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 945
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas”, op cit, v.4, p. 38
(4)  Musa, Mark-- “Inferno”, op cit, p. 947
(5) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 380
(6) Id., ib, p. 380.
(7) Ciardi, John- “The Inferno” (tradução para o inglês e notas) in “The Norton Anthology of World Masterpieces”. Fifth Continental Edition, p. 867