segunda-feira, 21 de setembro de 2009

INFERNO- CANTO XXIV


Amos Nattini

            Dante inicia o Canto XXIV com uma longa comparação. Dedica os primeiros quinze versos a descrever a atitude do pastor perante as condições da natureza, inicialmente desapontado por achar que a geada era ainda neve e a falta de forragem para o rebanho persistiria, mas logo depois contente por ver que aquelas condições haviam mudado. Assim também o humor do poeta se alterou quando viu Virgílio inicialmente irritado (por ter sido enganado pelo demônio quanto ao caminho a seguir), mas logo depois, ao identificar um novo caminho, voltando para “aquela maneira doce que vi pela primeira vez ao pé do monte(/.../ con quel piglio/ dolce ch'io vidi prima a piè del monte- v. 20-21).

            Os dois poetas seguem por essa áspera via, escalando rochedos, o que é mais difícil para Dante do que para Virgílio, que o auxilia a transpor os obstáculos. O caminho é mais difícil para Dante pois ele é ainda vivo e portanto tem peso. Esse contraste entre os dois é lembrado também em outras ocasiões, reforçando o clima “sobrenatural” do poema. Neste Canto, é referido nestes versos:

Non era via da vestito di cappa,
ché noi a pena, ei lieve e io sospinto,
potavam sù montar di chiappa in chiappa. (v. 31-33)

Não era via para os vestidos de capa / pois nós dois – ele leve, eu amparado --/ mal subíamos de rocha em rocha
(a menção a capa -- de chumbo, implicitamente -- nos remete à punição dos hipócritas no Canto anterior)

            Também no v.54, quando Virgílio aconselha a um Dante exausto, sentado sobre uma pedra, há uma referência ao peso de seu corpo:

E però leva sù; vinci l'ambascia
con l'animo che vince ogne battaglia,
se col suo grave corpo non s'accascia. (v.52-54)

Levanta-te portanto; vence o cansaço/ com o ânimo que vence todas as batalhas,/se o peso do teu corpo não impedir isso.

            Tal peso tem um sentido metafórico: pode ser entendido como as exigências da matéria, que devem ser superadas no processo da evolução espiritual de Dante.... Ele deve percorrer o íngreme caminho que leva à fama (à glória eterna, ao Paraíso), que exige muito esforço para ser alcançada. Os versos antecedentes são explícitos com relação a isso:

“Omai convien che tu così ti spoltre,”
disse 'l maestro; “ché, seggendo in piuma,
in fama non si vien, né sotto coltre;

sanza la qual chi sua vita consuma,
cotal vestigio in terra di sé lascia,
qual fummo in aere e in acqua la schiuma. (v. 46-51)

“Que afastes a preguiça ora convém,”/ disse o mestre; “porque assentado em pluma/ ou sob dossel, à fama não se vem;
aquele que consome sua vida sem ela/ deixa tal vestígio de si na terra/ como fumo no ar e na água a espuma”
(temos aqui uma imagem extraída da Bíblia católica - Livro da Sabedoria 5:15 -segundo Mandelbaum et al) (1).

            Esse conselho de Virgílio é uma reafirmação da essência da mensagem da “Divina Comédia”, toda ela uma grande alegoria sobre a salvação da alma.  Trata-se de um poema comprometido com a concepção de mundo de seu autor (do que tiramos uma conclusão importante, a de que é possível haver grande poesia e engajamento simultâneo a uma causa).

            Dante readquire forças após o estímulo moral do mestre, e ambos prosseguem a jornada, acabando por chegar à sétima vala ou “bolgia”, onde há uma multidão de serpentes e gente nua correndo, apavorada, com elas enlaçando essa gente, inclusive atando-lhe as mãos atrás de seus corpos (o que é significativo, considerando que os habitantes dessa vala são ladrões). Repentinamente, ocorre essa metamorfose num dos pecadores que aí são castigados:  

Ed ecco a un ch'era da nostra proda,
s'avventò un serpente che 'l trafisse
là dove 'l collo a le spalle s'annoda.

o sì tosto mai né i si scrisse,
com' el s'accese e arse, e cener tutto
convenne che cascando divenisse;

e poi che fu a terra sì distrutto,
la polver si raccolse per sé stessa
e 'n quel medesmo ritornò di butto. (v.97-105)

E eis que uma serpente se lança/ a um que estava em nossa margem e o transfixa,/ ali onde o pescoço se junta aos ombros.
Nenhum o ou i jamais foi escrito/ tão rapidamente quanto ele se incendiou, ardeu,/ e caiu, em cinzas transformado.
Quando estava na terra assim desfeito,/ seu pó se juntou por si mesmo/ e retornou ao que ele era antes, subitamente.

            Dante por esse renascimento o compara à fênix mitológica, que só se alimenta de lágrimas de incenso e amono, e morre quando chega aos quinhentos anos, preparando seu último leito com nardo e mirra (essa frequente alusão à mitologia clássica, e exploração dos pormenores de suas lendas, é uma das razões do encanto do poema).

Gustave Doré
            Dante-personagem pergunta então ao homem quem ele era, e este  afirma ser Vanni Fucci, de Pistoia. Dante-autor usa aqui uma inovação de linguagem, pois o condenado assim se expressa, ao dizer como foi parar naquela vala: “Eu chuvi de Toscana,/ há pouco tempo, nesta garganta fera” (/.../ Io piovvi di Toscana,/ poco tempo è, in questa gola fiera- v.122-123).

            Em seguida o discípulo de Virgílio quer saber que culpa o lança ali, pois “o via como homem de sangue e rixas” (ch'io 'l vidi omo di sangue e di crucci”- v. 129). Dante assim já devia saber que Vanni Fucci era filho de um líder dos (guelfos) Negros de Pistoia, adversário político dos Brancos, seu partido. Ele era filho bastardo (mul- v.125) ou  “mula”, o que dá a Dante pretexto para referir-se à sua vida “bestial” e a chamar de “caverna” a cidade onde morava, nos versos  124-126. Conforme um comentarista, Dante se surpreende de encontrá-lo aqui e não no Flegetonte, junto aos outros violentos (cf. Canto XII) (2). Vanni  Fucci diz que roubou ornamentos da sacristia (da Catedral de Pistoia), deixando que outro fosse responsabilizado por isso. Para Vanni Fucci, Dante saber disso lhe é mais penoso do que ter sido retirado da vida terrena (v. 133-135), pois sabe que o poeta florentino o divulgará no mundo dos vivos, prejudicando seu conceito. Mas para que Dante não se regozije com a miséria de sua atual condição, ele faz uma profecia sobre o que acontecerá com os Brancos (na realidade, como a ação do poema se passa em 1300, o que ele profetiza é aquilo que já acontecera ao poeta). Os Brancos serão derrotados pelos Negros em Campo Piceno, em Pistoia, os quais passarão a dominar a política de Florença (dentre os banidos dali e que tiveram sua casa incendiada inclui-se o próprio Dante) (3). No último verso do Canto, Vanni Fucci encerra a sua profecia nestes termos, revelando toda a sua malignidade: “E o disse para que doer te faça!” (E detto l'ho perché doler ti debbia!”- v.151).



NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p.378

(2) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 943 

(3) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.3- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.431.







         

INFERNO- CANTO XXIII

Canto XXIII (Caifás)- Giovanni  Stradano

            Os dois poetas seguem agora sós, sem a escolta dos demônios. A situação que há pouco testemunharam -- o episódio do final do canto anterior, em que Calcabrina e Alichino, ao perseguirem o Navarrês, acabam levando a pior -- faz Dante associá-la à fábula atribuída a Esopo, da rã e do rato. Aquela procurava afogar este, preso às suas costas na travessia de um rio. Mas ambos tornam-se vítimas do falcão no final (1). Também os dois diabos em disputa acabam caindo no lago de piche fervente...

            Na sequência Dante se aflige pensando na reação dos demônios, irados por terem sido enganados pelo Navarrês. Imagina-os vindo atrás deles. Compara-os ao cão que persegue a lebre:

Se l'ira sovra 'l mal voler s'aggueffa,
ei ne verranno dietro più crudeli
che 'l cane a quella lievre ch'elli acceffa”. (v.16-18)

Se a ira se adiciona à sua malícia/ eles virão atrás de nós, mais ferozes/ que o cão cujos dentes apanham a lebre.

            O medo dos Malebranche faz seus pelos eriçarem (Già mi sentia tutti arricciar li peli/ de la paura/.../- v.19-20). Diz a Virgílio que eles devem procurar se esconder dos demônios. Virgílio lhe responde afirmando que se fosse um espelho refletiria antes a imagem interior de Dante do que a externa, demonstrando conhecer bem as reações do discípulo. Para escapar dos demônios, decide descer para a outra “bolgia” (bolsa, vala), a sexta, pela encosta direita. Ao ver os diabos se aproximando, com as asas abertas,

Lo duca mio di sùbito mi prese,
come la madre ch' al romore è desta
e vede presso a sé le fiamme accese,

che prende il figlio e fugge e non s'arresta,
avendo più di lui che di sé cura,
tanto che solo una camiscia vesta; (v. 37-42)

O guia subitamente me agarrou/ como a mãe que, acordada por um rumor/ e vendo perto dela arderem as chamas/ agarrará seu filho e correrá,/ cuidando mais do filho que de si mesma, tanto que só uma camisa veste; 

(esta, como se vê, é mais uma comparação, dentre as inúmeras que a imaginação fértil do poeta florentino concebeu para o seu poema).

            Assim, levando Dante junto ao peito, “como seu filho, não como companheiro” (come suo figlio, non come compagno- v.51), com ele escorregou pela encosta para a outra vala. Mal seus pés tocaram o fundo da vala, os demônios apareceram na beirada da rocha, acima de suas cabeças. Aos demônios da quinta fossa, porém, era proibido sair dali,

ché l'alta provedenza che lor volle
porre ministri de la fossa quinta,
poder di partirs' indi a tutti tolle. (v. 55-57)

pois a Alta Providência, que os queria ministros da quinta fossa,/ negava-lhes o poder de sair dali.

Gustave Doré

            Na sexta vala, a dos hipócritas, os dois poetas encontram uma gente chorando, “com semblante exausto e derrotado”, de capa dourada e capuz baixo, quase cobrindo os olhos, que se desloca vagarosamente. Quanto às capas,

Di fuor dorate son, sì ch'elli abbaglia;
ma dentro tutte piombo, e gravi tanto,
che Federigo le mettea di paglia. (v.64-66)

Por fora eram douradas e resplendiam;/ mas por dentro eram de chumbo, tão pesadas/ que a capas de Frederico eram de palha, comparadas a elas.

            Consta que Frederico II, imperador do Sacro Império Romano, castigava os traidores mandando-os vestir uma capa de chumbo, para serem depois lançados num caldeirão fervente (2).

            A lei do contrapasso se faz sentir aqui de forma bem evidente. Assim como os hipócritas têm uma personalidade falsa, em que sua aparência externa não corresponde à sua natureza interior, o castigo que lhes é atribuído consiste em vestir uma capa e capuz excessivamente pesados, por fora de ouro e por dentro de chumbo.

Gustave Doré- Os hipócritas

            Dante pede a Virgílio para identificar ali alguém “cujo nome ou fato se conheça” ( /.../ “Fa che tu trovi/ alcun ch'al fatto o al nome si conosca,- v.73-74). E um deles, atrás, reconhecendo a fala toscana de Dante, manifesta-se, dizendo que poderá lhe dar as informações que procura. Dante é aconselhado por Virgílio a esperar até que cheguem onde está, e depois a acompanhá-los no seu mesmo passo, muito lento por causa de sua vestimenta insólita. Dante espera, e vê dois deles, cujos rostos mostravam que estavam ansiosos por estar com ele.

Quando fuor giunti, assai com l'occhio bieco
mi rimiraron sanza far parola;
poi si volsero in sé, e dicean seco:

“Costui par vivo a l'atto de la gola;
e s'é son morti, per qual privilegio
vanno scoperti de la grave stola?” (v.85-90)

Ao chegar, me olharam/ obliquamente, sem pronunciar palavra;/ depois, voltando-se, disseram para si:/ “A garganta deste revela que está vivo;/ e se estão mortos, por qual privilégio/ andam sem usar o pesado manto?”
(seu olhar é oblíquo por causa do peso do capuz) (3).

            Atendendo ao seu pedido, Dante se identifica, dizendo que nasceu e criou-se às margens do rio Arno, na “grande cidade” (gran villa- v. 95) (Florença). Depois pergunta: “Mas vós quem sois, em quem eu vejo/ a dor destilar pelas faces? (Ma voi chi siete, a cui tanto distilla/ quant' i' veggio dolor giù per le guance?- v.97-98),
versos em que Dante, em vez de usar a palavra “lágrimas” usa “dor”, tomando a causa pelo efeito (procedimento imitado por Petrarca) (4).

            Os condenados explicam então a natureza de seu suplício: sob as capas douradas devem arcar com o peso excessivo do seu revestimento de chumbo. Eles foram “frades gaudentes” (ou “joviais”), uma ordem fundada por volta de 1260 para “manter a paz entre facções políticas, reconciliar famílias e proteger os fracos contra os opressores”. O nome do frade que fala com Dante é Catalano, e o de seu acompanhante é Loderingo. Por serem estrangeiros -- pois ambos eram de Bolonha -- e de partidos diferentes -- o primeiro guelfo e o segundo guibelino -- foram eleitos dirigentes de Florença, visando assegurar a paz na cidade, o que não aconteceu, dada a sua parcialidade (5). Dante os considera assim hipócritas, pois não atuaram da forma correspondente à imagem que tinham, de pacificadores.  

            Em seguida Dante vê no caminho por onde todos deviam passar, aumentando o seu suplício, um crucificado no chão, com três estacas. O frade Catalano então lhe explica:

/.../ “Quel confitto che tu miri,
consigliò i Farisei che convenia
porre un uom per lo popolo a’ martìri. (v.115-117)

Esse que tu vês/ aconselhou os fariseus que convinha/ deixar um homem sofrer, em vez de um povo.

            Esse crucificado é Caifás, segundo os comentaristas, que -- com seu sogro, Anás, e outros, membros do Sinédrio Judaico -- foi responsável pela condenação à morte de Cristo (6). Todos eles sofrem naquela vala igual tormento. 

            No final do Canto, Virgílio recebe informação do frade sobre como sair dali e alcançar a próxima vala. Constata então que Malacoda havia mentido para ele a respeito do caminho a seguir (cf. Canto XXI). O frade não se surpreende com isso, pois em Bologna ouvira falar sobre os muitos vícios do diabo, e de que “ele é mentiroso, e pai das mentiras” (ch'elli è bugiardo e padre di menzogna- v. 144).


NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p.377 
(2) Id., ib., p. 361 e 377 
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.3- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p. 392 
(4) Id., ib, p. 394 
(5) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 378 
(6) Dante Alighieri- “Obras Completas”, op cit, v.3, p. 395











INFERNO- CANTO XXII



Gustave Doré- Ciampolo

           Relacionando-se ao último verso do canto anterior, o Canto XXII inicia por registrar a admiração de Dante ao ver cavaleiros e infantes moverem-se pelo som de tão estranha trombeta. Os dois poetas seguem com os dez demônios, cujo chefe era Barbariccia: “Ah, feroz companhia! Mas na igreja/ com os santos, e na taverna com os glutões” (Ahi fiera compagnia! ma ne la chiesa/ coi santi, e in taverna coi ghiottoni.- v.14-15).

            A atenção de Dante, porém, estava voltada só para a lagoa de piche fervente. E o poeta faz aqui duas comparações curiosas, em relação aos condenados nela imersos. A primeira os associa aos golfinhos, que mostram o dorso na superfície da água, assim como fazem os condenados, por um momento, para aliviar sua pena. A segunda comparação é com as rãs:

E come a l'orlo de l'acqua d'un fosso
stanno i ranocchi pur col muso fuori,
sì che celano i piedi e l'altro grosso,

sì stavan d'ogne parte i peccatori;
ma come s'appressava Barbariccia,
così si ritraén sotto i bollori. (v.25-30)

E como, na margem de um fosso,/ ficam as rãs, só com os focinhos de fora da água/ e escondem seus pés e a carne gorda,
assim estavam em toda parte os pecadores;/ mas quando se aproximava Barbariccia/ rapidamente mergulhavam no piche fervente.

            Dante viu um que se atrasou em mergulhar e foi fisgado pela empastada cabelereira por Graffiacane, que ao ser suspenso parecia uma lontra. Os outros demônios então dizem:

“O Rubicante, fa che tu li metti
li unghioni a dosso, sì che tu lo scuoi!”
gridavan tutti insieme i maladetti. (v.40-42)

“Ó Rubicante, crava-lhe as garras (do forcado)/ nas costas, para esfolá-lo!”/ gritavam todos juntos os malditos.

            Esse infeliz depois, instado a falar por Virgílio, a pedido de Dante, afirma que é de Navarra, tendo servido na corte do rei Teobaldo, onde praticou barataria (1) e por isso é punido ali, o que é ilustrado por estas metáforas: “Entre gatas más caíra o rato” (Tra male gatte era venuto 'l sorco; - v. 58). Antigos comentaristas lhe dão o nome de Ciampolo ou Giampolo e referem-se ao uso que fez em proveito próprio das funções que exercia naquela corte (2).  

            Após Ciriatto cravar nele uma de suas presas, Barbariccia o prende com os braços, e pergunta a Virgílio se não quer lhe fazer mais perguntas antes que os outros demônios o dilacerem (o Canto consiste, principalmente, no diálogo de Ciampolo com Virgílio, e também com Cagnazzo). O autor da “Eneida” quer saber se lá onde ele estava, no piche, havia algum latino (i.e. italiano). E o navarrês lhe diz que sim, que lá estavam Frei Gomita de Gallura e também D. Michele Zanche, praticantes do mesmo pecado da barataria (ambos eram da Sardenha; o primeiro acabou enforcado por ordem do governador de Pisa, a quem a Sardenha estava então subordinada, por ter aceitado subornos para deixar fugir alguns prisioneiros; quanto ao segundo, acredita-se que ele tenha sido governante de Logodoro, uma das quatro áreas em que a Sardenha estava dividida no século XIII) (3).  Essa informação é dada por Ciampolo enquanto sentia a ferida que lhe fizera o arpão de Libicocco... Barbariccia impede Draghignazzo de também lançar o seu arpão. E ainda o salva de Farfarello, a quem chama de “malvado pássaro” (malvagio uccello- v. 96).

            Na sequência, o navarrês propõe dali mesmo chamar por assovio, conforme seu código, toscanos ou lombardos (“sendo um só farei vir sete”: per un ch' io son, ne farò venir sette- v.103), caso mantenham os Malebranche afastados. Cagnazzo não acredita nele, e alerta os outros para sua intenção real, que é escapar dos demônios e mergulhar de volta no piche, evitando assim ser dilacerado. Alichino diz que isso não vai adiantar pois ele irá no seu encalço, não a galope mas batendo asas.

            Então os demônios se afastam (buscam a outra margem do fosso), o primeiro sendo justamente Cagnazzo, o que lançara dúvidas quanto à proposta de Ciampolo. Dante então fala com o leitor:

O tu che leggi, udirai nuovo ludo:
ciascun da l'altra costa li occhi volse,
quel prima, ch' a ciò fare era più crudo. (v.118-120)

O tu que lês, ouvi agora sobre esse novo jogo:/ cada um volta os olhos para a outra margem/ primeiro aquele que tinha sido antes o mais hesitante.

            O navarrês aproveita a oportunidade e escapa deles, mergulhando no lago de piche. Alichino não consegue apanhá-lo. Suas “asas não foram mais rápidas que o medo” (ché l' ali al sospetto/ non potero avanzar- v.127-8). Enquanto o pecador mergulha para o fundo, o outro voa para o alto. Dante estabelece aqui mais uma comparação:

non altrimenti l' anitra di botto,
quando 'l falcon s'appressa, giù s'attuffa,
ed ei ritorna sù crucciato e rotto. (v.130-132)

não de outro modo o pato mergulha/ precipitadamente quando o falcão se aproxima/ e este-- exausto, contrariado – retorna para cima.

            Ciampolo consegue assim lograr os demônios. Calcabrina seguiu Alichino, irado com este, pois induzira todos ao erro (Alichino dissera ao navarrês que não adiantaria tentar escapar; ele com suas asas o venceria na corrida). Vendo que o navarrês conseguiu safar-se, Calcabrina investe contra Alichino, que por sua vez revida, cravando-lhe as garras. Ambos se atracam e acabam por cair no piche fervente. Não conseguem dali sair pois suas asas ficam muito pesadas e viscosas. Barbariccia manda então quatro de seus comandados em socorro deles, que se posicionam nas margens e, para ajudá-los a sair dali, estendem-lhes os arpões. É assim, atarefados, que os poetas os deixam.

Gustave Doré- Alichino e Calcabrina 

            Como se vê, esse é um Canto muito movimentado, em que os protagonistas são os demônios (assim como no Canto anterior). Chama a atenção nele as comparações e metáforas que envolvem animais (golfinhos, rãs, lontra, gatas, rato, falcão, pato). Também há uma referência aos pássaros, no modo como Barbariccia chama Farfarello, que aliás perdem a conotação positiva que tinham no Canto V. Isso certamente não ocorre por acaso. O ser humano, para Dante, está no topo da hierarquia dos seres vivos. Mas ao pecar ele se degrada, e passa a ocupar posição equivalente à dos animais nessa hierarquia. Saliente-se que as referências a animais continuam no começo do próximo Canto (rã, rato, falcão, cão, lebre)... 

            Outra observação pertinente diz respeito à falta de lógica própria da linguagem poética, que fica bem evidente neste Canto. Aqui Ciampolo tem carne, corpo, sente a arpoada de Libicocco. Mas já vimos em outro canto os condenados serem chamados de “sombras” e se admirarem que Dante tivesse peso (pois ainda está vivo, é a explicação...).

  
 NOTAS

(1) Barataria, segundo o dicionário Aurélio, é definido como ”Ação de dar tendo uma retribuição em vista”.
(2) Mark Musa- “Inferno” (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 933
(3) Id., ib., p. 934


INFERNO- CANTO XXI


Amos Nattini- canto XXI

            Virgílio e Dante avistam agora, do alto do rochedo, a quinta vala do Malebolge, que é “estranhamente escura” (mirabilmente oscura- v.6), diferente das outras, que todavia também são escuras (pois no Inferno não há estrelas). Esse é o lugar onde expiam sua culpa os traficantes de influência, que usaram o cargo público em proveito próprio, (recebendo suborno). Eles incorreram no pecado da “barataria”, equivalente civil, segundo Mandelbaum et al., à simonia do Canto XIX (1).


               Os condenados estão imersos numa represa fervente de piche, e quando se erguem dali recebem arpoadas dos demônios presentes em suas margens (o piche é que deve dar à escuridão dessa vala um caráter peculiar). Assim como a prática da barataria não é feita às claras (ela exige que a administração pública não seja transparente, como se diz hoje), tais pecadores devem permanecer ocultos, i.e. submersos no piche. 

            Dante-autor faz aqui uma comparação curiosa (a partir do v.7): o lago de piche e seus ocupantes são associados àquele usado por um arsenal de Veneza, onde   trabalhadores executam, no inverno, diferentes serviços de reparação de navios, realizados simultaneamente.  


            Dante, distraído, olhando para baixo, não percebe a aproximação, por trás, de um diabo negro. Virgílio o alerta e o puxa para si. Mas o diabo na realidade só está vindo no mesmo rochedo, ou na mesma “ponte” em que eles estão, para chegar ao seu destino final, que é o lago fervente de piche. Ele vem correndo pelo rochedo e traz nos ombros um homem, segurando-o pelos tornozelos. Mas Dante diz a respeito desse diabo:

Ahi quant'elli era ne l'aspetto fero!
e quanto mi parea ne l'atto acerbo,
com l'ali aperte e sovra i piè leggero! (v.31-33)

Ah quanto o aspecto dele era feroz!/ e quanto me parecia ameaçador/ com as asas abertas e os pés ligeiros!

            Em seguida, o diabo dirige-se para os seus colegas:

/.../ O Malebranche,
ecco un de li anzïan di Santa Zita!
Mettetel sotto, ch'i' torno per anche

a quella terra, che n'è ben fornita:
ogn' uom v'è barattier, fuor che Bonturo;
del no, per li denar, vi si fa ita.” (v. 37-42)

O Malebranche (= “más garras”, nome coletivo dos demônios do quinto “bolgia),/ eis um dos anciãos de santa Zita!/ Atirem-no abaixo, que eu volto para buscar mais
àquela terra, que deles é bem fornida:/ lá todos são venais, exceto Bonturo;/ por dinheiro, o não se transforma em sim.

            Segundo os comentaristas, o “ancião de Santa Zita” é na realidade um dos magistrados de Lucca, cidade da Toscana cuja padroeira é Santa Zita; a menção a Bonturo, por sua vez, é irônica, pois trata-se de um político da época conhecido por sua venalidade.

            Assim, o diabo retorna à venal Lucca, e sua pressa sugere a Dante-autor outra comparação: “jamais mastim solto/ foi com tanta pressa atrás do ladrão” (/.../ e mai non fu mastino sciolto/ con tanta fretta a seguitar lo furo.- v.44-45). Também o recém-chegado pecador atirado no lago de piche fervente e mantido lá (quando ele se ergueu acima do piche recebeu cem pontaços) inspira a comparação dessa situação com a do cozinheiro:

Non altrimenti i cuoci a' lor vassalli
fanno attuffare in mezzo la caldaia
la carne con li uncin, perché non galli. (v.56-57).

Não de outra forma procede o cozinheiro/ ao mandar seus ajudantes espetar, para o fundo do caldeirão,/ a carne, a fim de que não boie.

            Virgílio então avança sozinho pela ponte e inicia a descida, depois de mandar Dante refugiar-se atrás de um rochedo. Os demônios aproximam-se de Virgílio ameaçadoramente:

Con quel furore e con quella tempesta
ch' escono i cani a dosso al poverello
che di sùbito chiede ove s'arresta,

usciron quei di sotto al ponticello,
e volser contra lui tutt'i runcigli;
ma el gridò: “Nessun di voi sia fello! (v. 67-72)

Com o mesmo furor e o alarido/ de cães quando perseguem o mendigo/ que então para, exausto, como para pedir esmola,
assim eles saíram de sob a ponte/ e voltaram-se contra meu guia com seus forcados,/ mas este gritou: “Que nenhum se atreva!



            Virgílio chama um dos demônios para ouvi-lo e decidir se devem atacá-lo ou não. Os diabos mandam Malacoda (= ”má cauda”), a quem Virgílio diz que está ali pela vontade divina: “Vamos seguir, pois no céu é desejado/ que eu mostre a alguém este caminho silvestre” (Lascian' andar, ché nel cielo è voluto/ ch'i' mostri altrui questo cammin silvestro.- v. 83-84). Ante isso, Malacoda deixa cair o seu forcado e diz aos outros para não os ferirem. Dante sai então de seu abrigo e se aproxima, ainda temeroso, de Virgílio. O poeta compara sua situação à dos soldados de Caprona que, após a rendição, viu tremerem ao passar pelos inimigos (esse castelo no vale do Arno foi tomado em 1289 pelos guelfos de Florença -- um dos quais Dante, a julgar por essa passagem-- e de outras cidades) (2).

            O zombeteiro Scarmiglione (= “desgrenhado”) (3) ameaça espetar Dante no traseiro, mas Malacoda manda-o aquietar-se. Depois diz a Virgílio que para prosseguir viagem ele não pode seguir por aquela ponte pois ela foi destruída há mil duzentos e sessenta e seis anos (devido ao terremoto que ocorreu por ocasião da morte de Cristo; essa quantidade de anos, acrescida da idade de Cristo pelo critério dos antigos, que inclui o período de sua gestação (4), resulta no ano em que transcorre a ação do poema- 1300). Afirma também que há um outro caminho e que ele poderá confiar no grupo de dez demônios que os acompanharão, grupo esse que está sendo enviado para assegurar que os condenados não se erguerão do piche. E convoca Alichino, Calcabrina, Cagnazzo, Barbariccia (= “barba eriçada”) (5), que guiará o grupo, Libicocco, Draghignazzo, o dentudo (sannuto) Ciriatto,  Graffiacane, Farfarello e o insano (pazzo) Rubicante. Mais importante, esteticamente, que o significado desses nomes imaginados por Dante é o “carnaval de sons” (6) que eles produzem, contribuindo assim para a (bela) sonoridade do poema.  

            Dante prefere ir sem essa escolta. Acha que Virgílio não deve confiar neles, a julgar pelos seus dentes, que rangem, e semblantes ameaçadores. Mas o mestre diz ao discípulo que tal aspecto não é por causa deles e sim pelos condenados.

            Todos se põem em marcha então, voltando-se para a esquerda. Antes, os diabos haviam apertado a língua com os dentes para Barbariccia, como um sinal, e este “fizera do cu trombeta(ed elli avea del cul fatto trombetta- v. 139). O sinal que os diabos fizeram seria de obediência às ordens do chefe (7), o qual em seguida age da forma grosseira indicada. Coerentemente, Dante usa aqui uma linguagem correspondente ao ambiente em que estão os protagonistas. No Paraíso, com certeza, a linguagem adotada será outra...  

NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 375
(2) Id., ib, p. 375
(3) Dante Alighieri- “A Divina Comédia”. Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. São Paulo: Landmark, 2005-p.199
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 375
(5) Dante Alighieri- “A Divina Comédia”. Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura, op cit, p. 201
(6) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.376
(7) Dante Alighieri- “A Divina Comédia”. Tradução, prefácio e notas prévias de Hernâni  Donato. São Paulo: Abril Cultural, 1981- p. 85            





INFERNO- CANTO XX



Amos Nattini, 1923- litografia
  

            Do alto de seu posto de observação, Dante vê -- no fundo do quarto bolgiaque se banhava de angustioso pranto” (che si bagnava d'angoscioso pianto- v.6) – os condenados avançarem, calados e lacrimosos. É ali que estão os feiticeiros e advinhos (os áugures), cuja punição consiste em ter o rosto sempre voltado para as costas, obrigados por isso a andar para trás. Aqueles que pretendiam ver o futuro (uma prerrogativa divina) não conseguem agora nem ver o que está diante deles...:

Come ‘l viso mi scese in lor più basso,
mirabilmente apparve esser travolto
ciascun tra 'l mento e 'l principio del casso,

ché da le reni era tornato 'l volto,
e in dietro venir li convenia,
perché 'l veder dinanzi era lor tolto. (v. 11-15)

Como eu inclinasse a cabeça mais abaixo/vi que cada um, surpreendentemente, parecia distorcido/ entre o queixo e o princípio do tórax; 
tinham o rosto voltado para os rins/ e só andar para trás lhes convinha/ porque não podiam ver à frente.

            E Dante-autor continua a explorar visualmente tal imagem insólita, após dirigir-se ao leitor com familiaridade:

com'io potea tener lo viso asciutto,

quando la nostra imagine di presso
vidi sì torta, che 'l pianto de li occhi
le natiche bagnava per lo fesso. (v.21-24).

como eu podia ter o rosto enxuto,
quando essa nossa imagem vi de perto/ tão torta, que o pranto de seus olhos/ as nádegas banhava pela fenda.

            Virgílio repreende Dante por apiedar-se deles e chorar, fazendo-o entender que o juízo divino é para ser aceito, e não lamentado.

            Em seguida, aponta para algumas almas que ali estão: Anfiarau, Tirésias, Aronta e Manto, todo eles videntes ou advinhos.  Mandelbaum et al. fornecem alguma informação sobre eles  (1).  

            Anfiarau foi um dos sete reis que lutaram contra Tebas, na Grécia, e previu a própria morte na guerra; mas fugindo dela, acabou por encontrá-la, quando “se abriu a terra aos olhos dos tebanos” (s'aperse a li occhi d'i Teban la terra- v.32), i.e., quando ocorreu um terremoto na região.

             Tirésias foi um famoso profeta de Tebas que, segundo relata Ovídio, foi transformado em mulher ao bater com o cajado num casal de serpentes unidas e depois de sete anos, após agir da mesma forma em idêntico encontro de serpentes,  voltou a ser homem.

Vedi Tiresia, che mutò sembiante
quando di maschio femmina divenne,
cangiandosi le membra tutte quante;

e prima, poi, ribatter li convenne
li duo serpenti avvolti, con la verga,
che rïavesse le maschili penne. (v. 40-45).

Vê Tirésias, que mudou o aspecto/ quando de macho fêmea se tornou,/ transformando-se os membros, todos eles;
e depois teve que golpear uma vez mais/ as duas serpentes enlaçadas com o bastão/ para reaver as penas masculinas.

            Aronta, um advinho etrusco que previu a vitória de César contra Pompeu, em Carrara “fez da gruta de mármore branco/ sua morada; dali ele podia fitar/ as estrelas e o mar com visão desimpedida”:

ebbe tra ' bianchi marmi la spelonca
per sua dimora; onde a guardar le stelle
e 'l mar non li era la veduta tronca. (v.49-51)

      Sobre Manto, filha de Tirésias (2), também advinha, Virgílio discorre mais demoradamente, pois a história dela está associada à da sua cidade natal, Mantua. Ela saiu de Tebas (a “cidade de Baco”, i.e. consagrada a ele) e depois de muito vagar pelo mundo, estabeleceu-se na região da Itália ao pé dos Alpes, próxima do lago Benaco, então desabitada. “E para fugir a todo consórcio humano,/ lá quedou-se, com seus servos, a exercer a sua arte; e ali viveu, e ali deixou seu corpo vazio”:

Lì, per fuggire ogne consorzio umano,
ristette com suoi servi a far sue arti,
e visse, e vi lasciò suo corpo vano. (v. 85-87)

            Mais tarde, “Construíram a cidade sobre seus ossos mortos” (Fer la città sovra quell' ossa morte -v.91). Cidade que no passado já contou dentro de seus muros com muito mais gente do que agora, devido segundo Dante-autor à insensatez de Casalodi (senhor de Mântua em 1272), que foi mal aconselhado pelo traidor Pinamonte dei Buonaccorsi, o qual acabou por tomar o poder.  O poeta florentino estende-se aqui talvez excessivamente sobre as origens da cidade natal de Virgílio,  pois dedica 44 dos 130 versos do Canto XX ao tema -- do v. 58 ao v. 102 --, que na realidade é estranho ao desse Canto. A propósito, esse último verso contém uma comparação interessante, feita após Dante afirmar a Virgílio que merece toda a sua fé o que ele acaba de dizer sobre as origens de Mântua, descartando explicações alternativas: “/.../ outras palavras para mim seriam como carvão queimado” (che li altri mi sarien carboni spenti- v. 102).

Bottega di Pacino di Bonaguida- sec. XIV

            Mas Dante volta ao tema de seu Canto nos versos seguintes, quando Virgílio, atendendo ao pedido do curioso discípulo, cita outros áugures que ali estão (3): Eurípilo (que juntamente com Calcanta teria indicado aos gregos a hora mais conveniente para seus navios partirem em direção a Troia), o astrólogo escocês Miguel Scott, Guido Bonatti, outro astrólogo, Asdente, que foi sapateiro em Parma (seu nome significa "sem dentes"), e algumas mulheres, as quais, deixando suas agulhas e rocas, se tornaram advinhas, a “praticar malefícios com ervas e imagens” (fecer malie con erbe e con imago -v.123).

            O Canto conclui com Virgílio lembrando a Dante que já é tarde e eles devem prosseguir em sua jornada.  Já “Caim com os espinhos” (i.e. a Lua e suas manchas , onde a crença popular italiana coloca o assassino do irmão Abel) “se avizinha/ de ambos os hemisférios e toca o mar,/ abaixo de Sevilha”. Segundo Mandelbaum et al., a Lua está aí na posição ocidental extrema do hemisfério norte (“abaixo de Sevilha”: sotto Sobilia -v.126), limite do mundo então conhecido. Ele afirma ainda que no lado oposto, em Jerusalém, são 6 horas da manhã do Sábado de Aleluia, 9 de abril de 1300 (4).

NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 374
(2) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 926  
(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 374. 
(4) Id., ib., p.375 

INFERNO- CANTO XIX






            Dante inicia o Canto XIX dirigindo-se a Simão Mago e seus sequazes. Simão, segundo os comentaristas, é o personagem referido na Bíblia que quis comprar os dons do Espírito Santo e foi censurado por S.Pedro. De seu nome deriva o termo “simonia”, que designa o pecado da venda das coisas sagradas. Os dois poetas visitam neste Canto o terceiro “bolgia”, a vala dos simoníacos.
           
            Do alto do rochedo, eles avistam o fundo do fosso onde há buracos redondos semelhantes aos poços que havia no batistério da igreja de San Giovanni, em Florença. Ao contrário do ritual do batismo, nesses buracos os condenados estão mergulhados de cabeça para baixo. De fora, só ficam seus pés e as pernas. As plantas dos pés ardem sob a ação do fogo. Dante quer saber quem é aquele que se debate mais que os outros, “e a quem chama mais rubra aquece”. Virgílio então o levará até o fundo do fosso para que o condenado mesmo, aquele “que se lamentava com as pernas”, responda à sua pergunta:

“O qual che se' che 'l di sù tien di sotto,
anima trista come pal commessa,”
comincia' io a dir, “se puoi, fa motto.”

Io stava come'l frate che confessa
lo perfido assessin, che, poi ch'è fitto,
richiama lui per che la morte cessa. (v.46-51)

Quem quer que sejas, alma triste,/ de cabeça para baixo, metido no solo como uma estaca,” comecei a dizer, “se podes falar, fala.”
Eu era como o frade que confessa/ o pérfido assassino, já semienterrado,/ que o chama, e assim retarda a morte
(essa última observação refere-se a uma forma de condenação à morte pela Justiça da época, em que o criminoso era enterrado vivo).

            O condenado alguns versos adiante vai fornecer subsídios que permitem a sua identificação:

sappi ch' i' fui vestito del gran manto;

e veramente fui figliuol de l'orsa,
cupido sì per avanzar li orsatti,
che sù l'avere e qui me misi in borsa. (v.69-72)

sabe tu que eu já vesti o grande manto;/ e verdadeiramente fui filho da ursa, / tão cúpido em promover ursinhos/ que embolsei ouro lá em cima e acabei aqui embolsado
 (notar a referência à bolsa, que realça o fato de que ele está em um dos “bolsões do mal”, o Malebolge)

            Trata-se do papa Nicolau III, que era da família Orsini, conhecida como a dos “filhotes da ursa”, segundo Mandelbaum et al  (1). Quando Dante lhe faz a indagação, Nicolau o toma pelo papa Bonifácio VIII, que chega antes do previsto para substituí-lo (ele então irá mais para o fundo, assim como sucedeu com os outros condenados, que o antecederam:
Di sotto al capo mio son li altri tratti
che precedetter me simoneggiando,
per le fessure de la pietra piatti. ( v.73-75 )

Debaixo da minha cabeça estão/ os que me precederam simoniando;/ eles tapam as fissuras da pedra.

            Depois de Bonifácio, diz o condenado, “virá do poente um de obra mais feia,/ um pastor sem lei,/ por quem eu e o outro seremos empurrados mais para o fundo” :

ché dopo lui verrà di più laida opra,
di ver' ponente, un pastor sanza legge,
tal che convien che lui e me ricuopra. (v.82-84)

            Os comentaristas o identificam como Clemente V, que para tornar-se papa aceitou as condições impostas pelo rei Felipe o Belo, de França. Foi Clemente V quem transferiu, em 1309, a sede do papado para Avignon, que aí permaneceu até 1377 (2) (ele era, portanto, o papa quando Dante escreveu boa parte da “Divina Comédia”, iniciada segundo Mandelbaum et al em 1307-1308 (3) ). Dante o compara a Jasão, mencionado no livro dos “Macabeus”, que obteve a posição de Sumo Sacerdote dos judeus subornando o rei Antíoco da Síria, o qual dominava então Jerusalém (4).

            A seguir, do v.90 ao v. 117, Dante-personagem, dirigindo-se a Nicolau III, faz contundente critica à simonia dos papas, iniciando por perguntar: “Quanto ouro, me diz, pediu/ Nosso Senhor antes de dar/ as chaves a S.Pedro? /Certo é que nada pediu a não ser 'vem comigo!' :

Deh, or mi dì: quanto tesoro volle

Nostro Segnore in prima da san Pietro
ch'ei ponesse le chiavi in sua balìa:
Certo non chiese se non “Viemmi retro.” (v.90-93)

            Em sua censura cita S.João Evangelista: “De vós pastores ocupou-se o Evangelista/ quando viu aquela que se assenta sobre as águas (a Igreja)/ prostituir-se com os reis;
aquela que nasceu com sete cabeças/ teve a força e o apoio de dez cornos,/ enquanto a virtude agradava ao seu marido” (o papa):

Di voi pastor s'accorse il Vangelista,
quando colei che siede sopra l'acque
puttaneggiar coi regi a lui fu vista;

quella che con le sette teste nacque,
e da le diece corna ebbe argomento,
fin che virtute al suo marito piacque. (v.106-111).

            Note-se aqui, além da linguagem (cf. puttaneggiar- v. 108), a alegoria, inspirada numa figura do Apocalipse: “aquela que se assenta sobre as águas” é a Igreja, as “sete cabeças” representam os sete sacramentos e os “dez cornos”, os dez mandamentos (5) . A referência a “seu marido”  consiste em  metáfora do papa (6).

            Depois, Dante invoca o imperador Constantino, lamentando que, após a conversão deste, a Igreja Católica tenha adquirido poder temporal.  Constantino transferiu a sede do Império para Constantinopla deixando Roma a cargo do papa Silvestre I, il primo ricco patre (7):  

Ahi, Constantin, di quanto mal fu matre,
non la tua conversion, ma quella dote
che da te prese il primo ricco patre!  (v.115-117)

Ah, Constantino, de quanto mal foi madre/ não a tua conversão, mas aquele dote/ que de ti recebeu o primeiro rico padre!
(destaque-se a aliteração do v. 117)

            Nos versos finais do Canto, Virgílio, abraçando Dante contra seu peito, auxilia-o a subir rochedo acima, ao refazer o caminho por onde vieram. Dali eles avistam a próxima vala.

            O sentido do Canto é bem evidente: o católico Dante se ressente de que sua Igreja distanciou-se das próprias origens, apresentando-se agora desvirtuada e passível de crítica, pois incorre no pecado da simonia. O poeta quer o retorno da Igreja à pureza primitiva.



NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 372
(2) Id. ib., p. 372-373
(3) Id. ib., p. I
 (4) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.3- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.275
(5) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 373; para o Mons. Pinto de Campos, que adota outra interpretação, a prostituta não é a Igreja católica mas “Roma, da Cúria papal, do poder mundano dos Papas”- cf. Dante Alighieri- “Obras Completas”, op cit- v.3, p. 277-278
 (6) Dante Alighieri- “Obras Completas”, op cit- v.3, p. 279
 (7) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 373.