quarta-feira, 26 de agosto de 2009

INFERNO- CANTO VI




Dante e seu guia estão agora no terceiro círculo do Inferno, onde cumprem pena os condenados “pela danosa culpa da gula” (per la dannosa colpa de la gola- v.53). O castigo que o poeta imagina para eles, em correspondência ao seu pecado, segundo a “lei do contrapasso” é o seguinte: debaixo de pesada chuva, fria e “suja”, de granizo e neve, jazem sobre um solo que cheira mal (pute la terra che questo riceve- v.12). A chuva os faz uivar como cães (Urlar li fa la pioggia come cani- v.19) (cf. o símile). Os condenados, continuamente, se viram de um lado para outro no solo, a fim de se protegerem dessa chuva estranha. Sua situação assim é semelhante à dos porcos, imersos que estão num fétido lamaçal, onde se agitam.

O guardião desse círculo é Cérbero, um personagem mitológico do mundo subterrâneo, que já aparecera nas obras de Virgílio (1). Dante assim caracteriza essa figura temível:
Li occhi ha vermigli, la barba unta e atra,
e ‘l ventre largo, e unghiate le mani;
graffia li spirti, ed iscoia ed isquatra. (v.16-18)
(“Tinha os olhos vermelhos, a barba untada e atra (= negra),/ o ventre largo e garras/ que arranham os espíritos, e esfolam e esquartejam .”)

Dante o imagina um monstro de três cabeças, cujo ladrar é um tormento a mais para os condenados, que gostariam, por isso, de estar surdos (v.33). Assim como os gulosos uivantes foram comparados a cães, também Cérbero é comparado a esse animal (v.28). Quando Virgílio e seu discípulo se aproximam, a fera “escancarou as bocas e mostrou as presas;/ não tinha membro que não se crispasse” (le bocche aperse e mostrocci le sanne;/ non avea membro che tenesse fermo- v. 23-24). O autor da “Eneida” então joga punhados de terra em suas três bocas, o que a faz aquietar-se com tal “alimento” (esse monstro, com seu número excessivo de bocas, e as características referidas acima, nos v. 16-18, é o símbolo alegórico da gula, na opinião do Boccaccio (2) ).


Na sequência, Dante diz:
Noi passavam su per l’ombre che adona
la greve pioggia, e ponavam le piante
sovra lor vanità che par persona. (v.34-36)
(“Pisávamos as sombras em quem batia/ a pesada chuva, e nossos pés calcavam/ suas imagens vazias com aparência de pessoas”).

Todas essas sombras jaziam sobre esse solo fétido, exceto uma, que se ergue para sentar-se e dirigir-se a Dante:
“O tu che se’ per questo ‘nferno tratto,”
mi disse, “riconoscimi, se sai:
tu fosti, prima ch’io disfatto, fatto.” (v.40-42)
( “Ó tu que és trazido a este Inferno”,/ me disse, “reconhece-me, se podes:/ antes de eu ser desfeito, foste feito.” )

O poeta não lembra dele, e pede para que se identifique (ele sofre uma pena “que se há maior, não há tão repugnante”: che, s’altra è maggio, nulla è sì spiacente- v.48)  Trata-se de Ciacco, natural de Florença, cujo nome, na linguagem dessa cidade quer dizer porco”. Mas aparentemente também pode ser nome de família (3). Ele é, portanto, conterrâneo de Dante. Afirma estarem ali todos os que cometeram o pecado da gula. Dante então pergunta sobre o que acontecerá com a “cidade dividida” (entre as facções políticas), Florença (os mortos têm essa capacidade de previsão). O poeta usa aqui um artifício: a ação da “Comédia” se passa, como vimos, em 1300, enquanto ele compõe o poema alguns anos mais tarde, no exílio. Então o que Ciacco prevê (v.64-72) é o que de fato já aconteceu em Florença. Ele prevê que após longas disputas (entre Guelfos Brancos e Negros), haverá derramamento de sangue, e a “parte rústica” (os Brancos) expulsará a outra parte (os Negros). Mas depois, dentro de “três sóis” (ou três anos), a situação se inverterá, e essa última derrubará a “parte rústica”, a qual será subjugada (diz o v.71 que os Negros estarão “mantendo a outra parte debaixo de grandes pesos” : tenendo l’ altra sotto gravi pesi). Os Brancos também serão exilados, inclusive Dante, que era um deles. O poeta nunca mais retornará à terra natal, vivendo sob a proteção de alguns senhores de outras regiões italianas.

Os comentaristas nos ajudam a compreender melhor essa passagem. Após a derrota sofrida em 1289 pelos Guibelinos em Campaldino e Caprona, o partido Guelfo conquista o poder em Florença. Todavia, por volta de 1300, está dividido em duas facções, a dos Guelfos Brancos e a dos Negros. Depois de conflitos sangrentos, ocorre inicialmente a supremacia dos Brancos, a “parte rústica” (la parte selvaggia- v.65), liderada pela família Cerchi (4). O nome dessa parte ou facção se explica porque o chefe dos Cerchi, Vieri, era homem rico “mas de nobreza nova, vindo pouco antes de Ancona, e dos bosques do vale Nievole ou de Sieve” (5) ). Os Negros, por sua vez, eram liderados pela família Donati, de nobreza antiga mas menos rica, cujo chefe chamava-se Corso Donati (6). Eles reconquistam o poder, de fato, “dentro de três sóis” (infra tre soli- v.68), i.e. três anos, em 1302, auxiliados pela interferência do papa Bonifácio VIII (7), daquele que “maneja as velas” (...di tal che testé piaggia- v.69).

Ciacco também afirma que em Florença a “soberba, inveja e avareza são/ as três faíscas que incendeiam os corações” (superbia, invidia e avarizia sono/ le tre faville c’ hanno i cuori accesi- v.74-75).

Dante gostaria de saber qual o destino de algumas pessoas que nomeia—Farinata, Tegghiaio, Jacopo Rusticucci, Arrigo e Mosca. Eles são, segundo Mandelbaum et al. (8), antigos políticos florentinos que viveram antes da divisão dos Guelfos em Negros e Brancos. Ciacco diz a Dante que ele os encontrará mais abaixo, pois “Eles estão entre as almas mais negras” (...Ei son tra l’ anime più nere- v.85). De fato, Dante vai encontrá-los no círculo dos heréticos (Canto X), dos sodomitas (Canto XVI) e dos semeadores de discórdia (Canto XXVIII). Depois, Ciacco pede a Dante que, ao retornar ao “doce mundo”, lembre dele à memória dos vivos. E conclui, dizendo—“mais não te digo e mais não te respondo” (più non ti dico e più non ti rispondo- v.90). Retornando à condição anterior, o seu olhar direto torna-se oblíquo, olha um pouco para o poeta e depois baixa a fronte, deitando-se ao lado dos “outros cegos” (li altri ciechi- v.93). Por que Dante usa essa metáfora? porque os condenados não podem ver (Deus). E não podem ver porque reina ali a escuridão, a ausência da luz (divina).

Virgílio informa a Dante que Ciecco não mais se levantará até o dia em que virá o “Poderoso adversário” (la nimica podesta- v.96), i.e. Cristo, no dia do Juízo Final, quando ocorrerá a ressurreição da carne, ou quando
ciascun rivederà la trista tomba
ripiglierà sua carne e sua figura,
udirà quel ch’in etterno rimbomba. (v.97-99)
(“cada um verá de novo a sua triste tumba/ reaverá a carne e a figura,/ ouvirá aquilo que ressoará no eterno”).

O retorno da alma ao corpo, de acordo com a doutrina aristotélica-tomista, significará maior perfeição da natureza, implicando maior dor aos condenados e maior alegria aos eleitos, como Virgílio explica a Dante no final do Canto (9).

NOTAS

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 355
(2) Apud Mons. Pinto de Campos, Comentários ao Canto VI in Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2- S.Paulo:Editora das Américas, s.d.- p.250
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p.234 e 257
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.355-356
(5) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p. 258
(6) Id., ib, v.2, p. 258
(7) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p. 260; “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 356
(8) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 356
(9) Dante Alighieri- “Obras Completas", v.2, op cit, p. 263-264







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