segunda-feira, 21 de setembro de 2009

INFERNO- CANTO XXXIV


Aqui se trata do último canto do "Inferno", que é formado por 34 cantos. Para começar a leitura desde o comentário ao Canto I, o visitante é convidado a ir para a primeira postagem, em 12 de março de 2009. 

Um livro, contendo o texto deste site, poderá agora ser adquirido em
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Lúcifer- Francesco Scaramuzza
             O aspecto visual domina este último canto do Inferno, aspecto esse também muito presente nos que o precederam. Como se viu, a poesia de Dante é eminentemente visual, e é de se estranhar, por isso, que até hoje não exista um grande filme baseado nesse poema fascinante, ao contrário do que acontece na pintura, em que já inspirou artistas notáveis como Botticelli, Blake, Doré, Dali etc (na escultura, inspirou Rodin, na música, Franz Liszt, dentre outros).
Lúcifer- G.Doré

            O impacto visual, no caso, decorre principalmente da impressão causada pela figura imaginada de Lúcifer (ou Dite, como Virgílio o chama no v.20, nome dado na antiguidade a Plutão, rei do mundo subterrâneo) (1) que Dante enfim encontra na área mais recôndita do fundo do Inferno, no seu último círculo, chamada Judeca. Nessa área, cujo nome decorre naturalmente do nome do apóstolo que traiu Cristo, está reservada aos que traíram seus benfeitores, vale dizer aos que incorreram no mais grave dos pecados na opinião do poeta.

            Lúcifer, com seu tamanho imenso, bem maior do que a dos gigantes antes referidos (pois a altura de um gigante equivale apenas a uma parte de seu braço), está encravado no gelo, até o meio do peito: “O imperador do reino doloroso/ saía fora do gelo do meio do peito para cima;” (Lo ‘mperador del doloroso regno/ da mezzo ‘l petto uscia fuor de la ghiaccia;) (v.28-29). Ele, que representa o Mal, possui uma cabeça com três faces, alusão, segundo os comentaristas, à Santíssima Trindade, ou a Deus, que não é um só mas três-- o Pai, o Filho e o Espírito Santo (2), contrapondo-se assim ao Bem. Suas três bocas trituram, cada uma, um pecador: na da frente, está Judas Iscariotes (com as pernas de fora, a cabeça dentro da boca), que é o mais penalizado; nas laterais, Brutus e Cássio, que traíram Júlio César (eles pendem da boca, em situação inversa, com a cabeça de fora).

Con sei occhi piangëa, e per tre menti
gocciava ‘l pianto e sanguinosa bava.

Da ogne bocca dirompea co’ denti
un peccatore, a guisa di maciulla,
sì che tre ne facea così dolenti.

A quel dinanzi il mordere era nulla
verso ‘l graffiar, che tal volta la schiena
rimanea de la pelle tutta brulla. (v.53-60)

Com seis olhos chorava, e por três queixos/ corriam lágrimas e baba sangrenta.
Dentro de cada boca triturava com os dentes/ um pecador, como um moinho,/ de modo a atormentar três ao mesmo tempo.
No da frente as mordidas eram nada,/ comparadas ao dano provocado pelas garras/ que lhe arrancava a pele das costas.

            Como se vê, Judas sofria mais do que Cássio e Brutus, este filho adotivo de César.  A referência aos dois lembra o Império Romano, que para Dante era sinônimo de poder temporal, enquanto a Igreja representava o poder espiritual. Ambas as instituições ocupavam um papel fundamental na visão de mundo de Dante.  

            Na Judeca existem ainda inúmeros outros pecadores, encerrados dentro do gelo, nas posições mais diversas (em pé, sentados, deitados etc). Dante os compara a palhinhas vistas dentro do vidro, uma outra imagem também visualmente muito sugestiva.

Già era, e con paura il metto in metro,
là dove l’ombre tutte eran coperte,
e trasparien come festuca in vetro. (v.10-12)

Já estava—e com medo o ponho em verso---/ lá onde todas as sombras eram cobertas,/ e transpareciam como palhinhas no vidro.

            O monstro tem grandes asas como as de morcego. A cada face corresponde um par de asas, e o conjunto dá a impressão de um moinho de vento. O bater dessas asas é a origem de um vento muito frio que gela o rio Cocito e toda essa região do Inferno.

            Lúcifer está encravado no gelo, no centro da terra, porque foi aí que caíu quando despencou do céu. Nos tempos (míticos) do início do mundo, anteriores às sociedades humanas, ele era o mais belo dos anjos (Lúcifer significa o que transporta luz) mas por soberba rebelou-se contra Deus, e sofreu assim as consequências dessa atitude. Caiu de cabeça no hemisfério sul e toda a terra, por isso, fugiu dele (cf a personificação), acumulando--se no hemisfério norte. O hemisfério sul passou a ser constituído apenas de água, com a exceção da terra que ali permaneceu e formou o monte do Purgatório (3). 

            Os dois poetas, avançando em sua jornada, cruzam o centro da terra, apoiando-se inclusive nos pelos do corpanzil do próprio Lúcifer, que nele está encravado. Num certo momento Virgílio, carregando Dante, muda de posição, colocando a cabeça no lugar dos pés. A partir desse ponto, passam para o hemisfério sul e Dante se admira depois de ver Lúcifer, no alto, de pernas para cima...


G.Doré
            No final do canto, Dante explica que no local mais distante onde está Belzebu (outro nome de Lúcifer) há um regato que é reconhecido não pela vista mas pelo som (Mandelbaum et al. afirmam que esse regato é provavelmente o rio Letes, do esquecimento, que procede do Purgatório, carregando para o Inferno os pecados lavados dos que lá estão) (4). Os poetas seguem esse caminho escondido e saem afinal do Inferno por um buraco redondo formado pelo próprio regato, quando então revêem as estrelas (os últimos versos das três partes da “Commedia” fazem referência às estrelas):


G.Doré
Lo duca e io per quel cammino ascoso
intrammo a ritornar nel chiaro mondo;
e sanza cura aver d’ alcun riposo,

salimmo sù, el primo e io secondo,
tanto ch’ i’ vidi de le cose belle
che porta ‘l ciel, per um pertugio tondo.

E quindi uscimmo a riveder le stelle. (v.133-139)

Meu guia e eu nesse caminho escondido/ entramos para retornar ao claro mundo;/ e sem cuidar de ter algum repouso
subimos, ele adiante e eu atrás,/ até que vi as coisas belas/ que o céu contém por um buraco redondo.
E dali saímos para rever as estrelas.


NOTAS
 
(1) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 981.
(2) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 441
(3) Id., ib, p. 467, 477-478.
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p. 394

Ilustração de antigo manuscrito 1474-1482

G.Stradano


Alessandro Vellutelo, 1564



Canto XXXIV- Amos Nattini

Canto XXXIV- Aparição de Dite- S.Dalí, 1951









INFERNO- CANTO XXXIII



Ugolino- Henry Fuseli
        
            Após a pergunta de Dante, formulada no final do canto anterior, o condenado que roía a nuca do outro interrompe a sua horrível atividade:

La bocca sollevò dal fiero pasto
quel peccator, forbendola a' capelli
del capo ch' elli avea di retro guasto. (v. 1-3)

A boca levantou do fero pasto/ aquele pecador, limpando-a nos cabelos/ da cabeça que ele roía atrás.

            Logo os dois envolvidos nessa cena grotesca são identificados: o primeiro é o conde Ugolino della Gherardesca, guibelino, ex-podestà (principal magistrado) de Pisa, e o outro, cuja cabeça é devorada, é o arcebispo Ruggieri degli Ubaldini, antigo aliado político que o traiu, prendendo-o numa torre, após Ugolino aceitar seu convite de retornar a Pisa, com a sua ascensão ao poder. Na torre, deixou-o morrer de fome, juntamente com seus quatro “filhos”, como são referidos nos versos  (na realidade, são dois filhos e dois netos) (1). A “lei do contrapasso” manifesta-se aqui de forma bem evidente: assim como Ruggieri o fez morrer de fome, agora no Inferno a punição eterna deste é servir de pasto ao conde.

            Ugolino e Ruggieri estão numa região limítrofe entre Antenora e Tolomeia. A primeira, como já vimos, é a área do nono círculo em que ficam os traidores da pátria, caso de Ugolino, acusado de entregar castelos de Pisa para as cidades de  Luca e Florença. A outra área é reservada aos que traíram seus convidados e associados, caso do Arcebispo, que procedeu daquela forma reprovável com relação a Ugolino quando se apoderou do controle de Pisa (2).

            O conde Ugolino responde à pergunta de Dante contando sua história, apesar do sofrimento que lhe causa relembrar os fatos. Mas ele o fará, pois isso contribui para prejudicar a fama de Ruggieri em nosso mundo. E também para que os pisanos saibam a crueldade a que foram submetidos na torre, pela qual também foram responsáveis, após Ruggieri jogá-los contra Ugolino.

Ugolino- G.Doré
             Ugolino e seus “filhos” já estavam presos há muitos meses quando ele teve um sonho premonitório: sonhou que Ruggieri era o senhor de uma caçada e perseguia o lobo e seus filhotes com suas cadelas adestradas (o povo revoltado contra ele). Após breve corrida, eles, exaustos, foram alcançados por elas, que dilaceraram seus flancos.

            Ao acordar, Ugolino ouviu que os filhos, dormindo, choravam e pediam pão:

Quando fui desto innanzi la dimane,
pianger senti' fra ' l sonno i miei figliuoli
ch' eran con meco, e dimandar del pane. (v.37-39)

Quando despertei antes de romper o dia,/ chorar ouvi, dentro do sono, meus filhos/ que estavam comigo lá, pedindo pão.

            Esperaram o alimento inutilmente. E ouviram depois, embaixo, a porta da torre ser pregada, o que significava sua condenação à morte pela fome (o som aqui é um elemento a mais que Dante mobiliza para criar o clima de pesadelo desejado).    

            Ugolino não chorou mas por dentro petrificou (Io non piangëa, sì dentro impetrai: - v. 49). Passa-se o tempo, e ele, desesperado com a situação, morde as próprias mãos. Os filhos, pensando que fizera isso pela fome, oferecem suas próprias carnes para alimentá-lo:

/.../ ‘Padre, assai ci fia men doglia
se tu mangi di noi: tu ne vestisti
queste misere carni, e tu le spoglia.’ (v.61-63)

/.../ ‘Pai, seria bem menos doloroso para nós/ se nos comesses: tu nos vestiste/ destas míseras carnes, delas podes nos despojar’.

            Ugolino prossegue em sua narração:

Queta' mi allor per non farli più tristi;
lo dì e l' altro stemmo tutti muti;
ahi dura terra, perché non t' apristi? (v. 64-66)

Me aquieto então para não deixá-los mais tristes;/ naquele dia e no seguinte nos conservamos mudos;/ ah, dura terra, por que não te abriste ?

Ugolino e Gaddo- G.Doré

            No quarto dia Gaddo atira-se aos pés do pai, perguntando-lhe: “Pai, por que não me ajudas?(/.../ “Padre mio, ché non m’aiuti?”- v. 69). E morre. Depois, no quinto e sexto dias, Ugolino vê os outros caírem um a um. Nos dois dias seguintes, já cego, arrastando-se até eles, apalpa-os e os chama pelos nomes. O episódio se encerra com um verso terrível e ambíguo (não por acaso, certamente)--  “Depois, mais do que a dor, pôde o jejum” (Poscia, più che 'l dolor, poté 'l digiuno- v.75) -- que sugere canibalismo (sugestão que já foi antecipada pelas palavras dos filhos referidas acima) ou a simples morte pela fome.
   
            Terminada a narração, Ugolino revira os olhos, e volta à sua horrenda ocupação, roer o crânio de Ruggieri.

Ugolino- G.Doré

            Na sequência Dante condena Pisa, pois se Ugolino traiu a sua cidade, seus “filhos” (Uguiccione, Brigata, Gaddo e Anselmuccio ou Anselminho), inocentes, não mereceram aquele castigo. Todo esse episódio relativo a Ugolino vai do v. 1 ao 90, tomando assim a maior parte dos 157 versos do canto XXXIII.

G.Stradano

            Os poetas prosseguem sua jornada e entram na Tolomeia. Este nome, segundo o comentarista, deriva de Ptolomeu, da Bíblia (I Macabeus, 16: 11-17), governador de Jericó, que matou seu sogro e dois filhos dele, seus convidados em um banquete, ou de Ptolomeu do Egito, que traiu Pompeu, depois de lhe oferecer abrigo (3), após ser derrotado por César na batalha de Farsália. Na Tolomeia, os condenados estão deitados de costas, presos no gelo, e não têm nem o consolo do choro pois se choram suas lágrimas ficam congeladas nas órbitas dos olhos, impedindo-os de ver.

            Uma alma se manifesta pedindo que os poetas retirem dela “os duros véus” (i duri veli- v. 112) para que possa desafogar a dor que lhe emprenha o coração (che’l cor m’impregna- v. 113; cf. a linguagem insólita). Dante diz que só vai ajudá-la se ela disser quem é. Fica sabendo então que se trata de frei Alberigo, “aquele das frutas do mau horto,/ aqui recebo tâmaras pelos meus figos(/.../ quel da le frutta del mal horto/ che qui riprendo dattero per figo- v.119-120). Ele, ao mandar vir as frutas em um banquete, deu o sinal para que os assassinos matassem dois de seus convidados. A menção a tâmaras e figos é interpretada como uma queixa sua à punição que recebeu, mais do que merecida, pois a tâmara vale mais que o figo...(4) 

            Dante se admira que ele já esteja morto. Mas Alberigo lhe explica que quando a alma trai ela vem imediatamente para ali enquanto seu corpo, na terra, é tomado por um demônio que lhe cumpre o tempo de vida restante (essa é uma peculiaridade da Tolomeia: a alma cai ali antes que Atropos -- uma das três parcas da mitologia clássica -- lhe corte o fio da vida) (5).

            Alberigo diz ainda que esse também deve ser o caso do condenado que está ali atrás dele já há muitos anos. É o senhor Branca d'Oria, um proeminente habitante de Gênova (6). Dante também se admira com isso, pois sabe que está vivo. Mas sua alma já está no Inferno há muito tempo, antes mesmo que seu sogro Michel Zanche -- que ele mandou matar durante um banquete -- chegasse ao outro círculo do Inferno que lhe estava reservado (como vimos antes, Zanche foi para o oitavo círculo, quinta vala do Malebolge, a dos traficantes de influência).

            Concluída sua fala, frei Alberigo pediu que Dante cumprisse sua promessa e lhe retirasse aquela “viseira de cristal” (visiere di cristallo- v. 98), que lhe era desconfortável. Mas Dante não fez isso. Ser vilão com esse condenado foi ato de cortesia (e cortesia fu lui esser villano- v. 150). Já vimos que exercer a caridade no Inferno é contrapor-se à justiça divina...

            O Canto termina com Dante condenando os genoveses, conterrâneos de Branca d’Oria, cujos costumes então se corrompiam pela aglomeração em Gênova de povos de diferentes culturas (7). Dante quer vê-los exterminados do mundo. Da mesma forma, a narração do episódio de Ugolino terminara com a condenação de Pisa, que foi injusta com os “filhos” inocentes do conde Ugolino. Dante desejou que fossem afogados todos os seus habitantes. Como se vê, o próprio poeta, ao compor os versos do “Inferno”, se deixou influenciar pela ausência de caridade cristã ali reinante...

            Nos últimos versos do canto XXXIII  o poeta florentino, dirigindo-se aos genoveses, refere-se a Branca d’Oria, que teve a mesma sorte de Frei Alberigo, nascido em Faenza, na Romagna (8):

Ché col peggiore spirto di Romagna
trovai di voi un tal, che per sua opra
in anima in Cocito già si bagna,

e in corpo par vivo ancor di sopra. (v. 154-157)

Pois com o pior espírito da Romagna/ encontrei um de vós, que pela sua obra,/ em alma já se banha no Cocito,
e em corpo aparece ainda vivo lá em cima.


NOTAS


(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p.391

(2) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 977

(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 392

(4) Id., ib, p. 392

(5) Id., ib, p. 392

(6) Musa, Mark-- "Inferno", op cit, p. 980

(7) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 435

(8) Musa, Mark-- "Inferno", op cit, p. 980



Conte Ugolino- Auguste Rodin

Goya- Saturno devorando um de seus filhos- 1820-1823

Traidores de seus convidados- Dalí
J.B.Carpeaux- Ugolino e seus filhos. 

INFERNO- CANTO XXXII



Cocito- G. Doré

            O canto XXXII mostra Dante começando a conhecer o fundo do Inferno. Está no nono círculo (o último), um lago congelado formado pelo rio Cocito, que diferentemente dos três anteriores (o Aqueronte, o Estige e o Flegetonte) é de águas muito frias. Dante e Virgílio estão agora no “fundo de todo o universo” (fondo a tutto l'universo- v.8), em conformidade com a concepção cósmica de Ptolomeu, pela qual todos os astros giravam em torno do nosso planeta. Essa concepção, hoje ultrapassada, era a que prevalecia na Idade Média.

            Dante gostaria de ter “rimas ásperas e rouquenhas” (rime aspre e chiocce- v.1) para melhor tratar aquilo que via, o que é revelador de sua preocupação estética em buscar intencionalmente a forma mais adequada ao seu objeto.

            Invoca então as musas para auxiliá-lo, dada a dificuldade de seu empreendimento, apelando de novo para a mitologia:

Ma quelle donne aiutino il mio verso
ch' aiutaro Anfïone a chiuder Tebe,
sì che dal fatto il dir non sia diverso. (v.10-12)

Mas aquelas damas ajudem o meu verso/ que ajudaram Anfião a murar Tebas,/ para que do fato meu dizer não seja diverso.

            Anfião recebeu das musas um poder encantatório: ao tocar a sua lira as pedras da natureza se moveram e formaram por si mesmas o muro de Tebas (1).

             A lenda mitológica está sempre subentendida nos versos de Dante, que se integra ao que neles é dito, contribuindo para reforçar o seu ambiente onírico, mágico. O poeta florentino sempre pressupõe o conhecimento da lenda por parte do leitor. O mesmo ocorre com as histórias de vida dos personagens que cita, frequentemente seus contemporâneos (note-se ademais como questões locais, políticas ou de outra natureza, ganham, no poema, uma dimensão universal...).

            Alguém alerta Dante para não pisar nas cabeças dos condenados que aí cumprem pena, com quase todo o corpo abaixo da superfície desse lago gelado, mais adiante comparados a rãs, a coaxar, com o focinho de fora da água:

dicere udi' mi: “Guarda come passi:
va sì, che tu non calchi con le piante
le teste de' fratei miseri lassi.”

Per ch' io mi volsi, e vidimi davante
e sotto i piedi un lago che per gelo
avea di vetro e non d' acqua sembiante. (v. 19-24)

e ouvi dizerem para mim: “Olha como passas;/ anda de modo a não pisar/ nas cabeças dos teus irmãos míseros e cansados”.
Ante isso me voltei e vi diante de mim,/ sob meus pés, um lago que por estar gelado/ parecia de vidro e não de água.

            Atente-se para o impacto visual dessa estranha paisagem gelada, concebida pelo gênio poético de Dante-autor.

            Os condenados aí mantêm os rostos voltados para baixo. Quando Dante repara em dois deles, com os corpos unidos no gelo, pergunta-lhes quem são. Eles então voltam seus rostos para o poeta, e a cena imaginada tem a força destes versos:

e poi ch' ebber li visi a me eretti,

li occhi lor, ch' eran pria pur dentro molli,
gocciar su per le labbra, e 'l gelo strinse
le lagrime tra essi e riserrolli. (v.45-48)

e depois que ergueram seus rostos para mim,
seus olhos, que estavam antes úmidos por dentro,/ gotejaram nos lábios, até que o frio/ congelou as lágrimas nas pálpebras, cerrando-as.

            Então um que tinha perdido as orelhas pela frialdade (E un ch’avea perduti ambo li orecchi/ per la freddura,/.../ - v.52-53) informa que esses dois foram irmãos, filhos do Conde Alberto degli Alberti , herdeiros do vale onde corre o rio Bisenzo (os comentaristas dizem tratar-se de Napoleone e Alessandro, que se mataram mutuamente por divergências não só quanto a essa herança mas também políticas, pois um era guelfo e o outro, guibelino). (2)  E ele ainda informa que em toda Caína Dante não encontrará sombra mais digna de estar ali. Percebemos então que esta é a primeira das quatro áreas em que se divide o nono círculo, a Caína (nome derivado de Caim, que matou seu irmão Abel, conforme a Bíblia). Outros condenados citados que estão aí são: Focaccia (um guelfo Branco, membro da família Cancellieri, de Pistoia, que matou seu primo, um guelfo Negro), Sassol Mascheroni (membro da família Toschi, de Florença, que matou o sobrinho para ficar com a herança dele) e Camiscion de' Pazzi (aquele que perdera as orelhas; este matou seu parente Umbertino) (3). Temos aqui uma amostra dos “mil rostos roxeados pelo frio” (mille visi cagnazzi/ fatti per freddo- v.70-71) que Dante vê na Caína, o lugar do círculo dos traidores em que estão os que traíram seu próprio sangue.

            Logo adiante os dois poetas entram na segunda área do nono círculo, Antenora (cujo nome deriva de Antenor, um troiano que traiu Troia para favorecer os gregos), lugar dos que traíram sua pátria, ou dos traidores políticos.

Bocca degli Abati- G.Doré

            Dante ao avançar em direção ao centro deste último círculo, sem querer golpeia fortemente com o pé o rosto de uma daquelas cabeças que estão para fora do gelo. O atingido, na mesma hora, reclama com veemência, indagando se não é por causa de Montaperti que é assim molestado. Diante dessa menção à batalha de Montaperti (quando os guelfos foram derrotados pelos guibelinos), Dante pede a Virgílio (que praticamente não desempenha nenhum papel neste Canto, cujo protagonismo cabe a seu discípulo) para se deter ali, pois quer saber mais desse condenado. Trata-se de Bocca delli Abati, um nobre guelfo de Florença que traiu seu partido, cortando as mãos de quem portava a bandeira dos guelfos na batalha de Montaperti em 1260, o que causou pânico em suas forças e a derrota frente aos guibelinos (4). É sobre esse condenado que mais se revela a ira de Dante. E não por acaso, pois sua história envolve traição política e se relaciona diretamente à política florentina que tanto afetou a vida do poeta.

Allor lo presi per la cuticagna
e dissi: “El converrà che tu ti nomi,
o che capel qui sù non ti rimagna.”

Ond' elli a me: “Perché tu mi dischiomi,
né ti dirò ch' io sia, né mosterrolti
se mille fiate in sul capo mi tomi.” (v. 97-102)

Então agarrei-o pela nuca/ e lhe disse: “Tu vais já dizer teu nome/ ou então não restará nenhum cabelo aqui”.
Ao que me diz: “Ainda que me arranques todos eles,/ não te direi quem sou, nem me mostrarei,/ nem se mil vezes golpeares minha cabeça.”

            Sua identidade acaba sendo revelada por outro condenado que ali cumpre pena, Buoso da Duera, que foi subornado pela “prata dos franceses” (l'argento de' Franceschi- v.115), i.e. por Charles d’Anjou, para permitir passagem às suas tropas a caminho de Nápoles, cujo rei os nobres guibelinos, inclusive Buoso, prometeram defender contra os franceses. (5)

                Ali também estão: Tesauro dei Beccheria, “de quem Florença cortou a cabeça” (di cui segò Fiorenza la gorgiera- v.120), núncio papal, guibelino, acusado de traição pelos guelfos; Gianni de' Soldanier, um nobre guibelino de Florença que se juntou aos guelfos quando ocorreu uma revolta popular contra o seu partido;  Ganelon, que traiu a retaguarda de Carlos Magno em Roncesvalles; e Tebaldello, “que abriu (as portas) de Faenza enquanto ela dormia” (ch' aprì Faenza quando si dormia- v.123). O guibelino Tebaldello, para vingar-se de Lambertazzi, que se refugiara em Faenza, abriu as portas da cidade aos inimigos guelfos. Todos os citados nessa passagem do Canto têm em comum, assim, a traição política, o que fica mais evidenciado com as notas do comentarista. (6)

Ugolino e o arcebispo Ruggieri- G. Doré

            O canto XXXII termina de modo abrupto (diferentemente dos anteriores, em que a ação se completa no próprio canto), após Dante formular uma pergunta a um dos dois enregelados numa cova, unidos pelas cabeças, de modo que o de cima rói a nuca do que está embaixo. Dante quer saber daquele que demonstra assim o seu ódio quem é ele e qual a razão do seu procedimento.


NOTAS 

(1) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p. 390
(2) Id., ib, p. 390
(3) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p.974
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 390
(5) Id., ib, p. 391
(6) Id., ib, p. 391

Traidores de sua pátria- Salvador Dalí 

Canto XXXII- Amos Nattini


INFERNO- CANTO XXXI



Canto XXXI- Vellutello

         Este Canto é inteiramente tomado pela presença de gigantes, equiparados a guardiões do próximo círculo do Inferno, o último.  Vistos de longe, quando os dois poetas se aproximam do nono círculo -- quando “Ali era menos que noite e menos que dia” (Quiv' era men che notte e men che giorno- v.10) --, Dante os confunde com torres circundando uma cidade. Ouvem soar então “uma alta trompa”, comparada à de Orlando (ou Roland) -- mencionada na famosa “Chanson de Roland” da literatura medieval francesa -- que alertou Carlos Magno para a derrota iminente de sua retaguarda (em Roscevalles, nos Pirineus) em luta contra os sarracenos (1). 

       Virgílio explica a Dante que as suas “torres” são na realidade gigantes, tão altos que só aparecem, no fosso central, do umbigo para cima, ficando o restante de seus corpos dentro deles. Dante usa aqui uma metáfora curiosa, chamando de avental dos gigantes a borda do fosso para baixo:

sì che la ripa, ch' era perizoma
dal mezzo in giù, ne mostrava ben tanto
di sovra, che di giugnere a la chioma

tre Frison s'averien dato mal vanto; (v.61-64)

de modo que a borda do poço, seu avental/ do meio para baixo, mostrava tanto dele/ para cima, que sua cabeleira
três frisões, postos um sobre o outro, não alcançariam;


        Os frisões eram os naturais da Frísia, região mais setentrional da Holanda, considerados então os homens mais altos do mundo. (2)

G.Sradano
            Os protagonistas do Canto são os gigantes Nimrod, Efialtes e Anteu.

            Nimrod -- o que soprou a trompa, avisando a chegada dos dois -- é o rei da Babilônia que concebeu a idéia da torre de Babel e foi punido com a confusão das línguas (Dante o imagina um gigante). Seu “/.../ perverso pensamento/ foi causa de não se falar no mundo uma só língua” (per lo cui mal coto/ pur un linguaggio nel mondo non s' usa- v.77-78). Dante inclui no poema um verso incompreensível, sem sentido- “Raphèl maì amècche zabì almi” (v.68), imaginado para dar uma amostra de sua língua estranha. Ninguém compreende a sua linguagem e ele não compreende a linguagem de ninguém. Após Nimrod pronunciar essas palavras, Virgílio, chamando-o de “alma estúpida” (Anima sciocca- v.70), manda-o ater-se à trompa que carrega, para nela expressar a sua ira ou outro sentimento, já que não pode fazê-lo pela linguagem de palavras.

Nimrod- G.Doré
            Lembremo-nos que Dante já usou antes, no primeiro verso do canto VII, esse recurso de um personagem do Inferno pronunciar palavras ininteligíveis, o que acentua a estranheza do outro mundo imaginado por ele.   

            Os poetas seguem em frente, “voltando à esquerda” (essa direção é recorrente no Inferno- cf. os cantos nºs X, XIV, XVIII e este, XXXI. O Mons. Joaquim Pinto de Campos explica a recorrência pelo fato de que esse é o lado pior, i.e. associado ao mal; no dia do Juízo Final, os condenados ao Inferno estarão situados à esquerda do Supremo Juiz) (3). Encontram então Efialtes, outro gigante, “bem mais feroz e maior” (assai più fero e maggio- v.84). 

Efialtes- G.Doré
Ele e seu irmão gêmeo, filhos de Netuno e Ifimédia, tentaram atacar o monte Olimpo, onde moram os deuses, colocando o  monte Pelion sobre o Ossa (4); por isso, está agora acorrentado. A corrente enrola seu corpo, prendendo-lhe os braços, cinco vezes. Foi punido por sua arrogância:

 “Questo superbo volle esser esperto
di sua potenza contra 'l sommo Giove,”
disse 'l mio duca, “ond' elli ha cotal merto”. (v.91-93)

“Este soberbo quis experimentar/ seu poder contra o supremo Jove,”/ disse o meu guia, “e tal mereceu”.

            Dante sugere aqui uma identificação de Jove (ou Júpiter) com o Deus judaico-cristão, e vê na revolta do gigante um sinal de arrogância, associando assim a mitologia clássica à da Bíblia. A revolta dos gigantes faz-nos lembrar da revolta dos anjos contra Deus, origem dos demônios.

Anteu- G.Doré
             O terceiro gigante que encontram é Anteu. Ele, que se alimentava de leões, viveu num “afortunado vale” (na África) onde Cipião derrotou Aníbal na segunda guerra púnica, entre romanos e cartagineses, conforme a referência feita por Dante nos versos 116-117. Anteu, segundo a mitologia filho de Netuno e Telus (a terra), foi morto por Hércules, que o ergueu da terra e o estrangulou no ar, pois a terra, mãe dos gigantes,  era fonte de sua força (5). Não está acorrentado, porque não participou da revolta contra os deuses. E pode se comunicar pela linguagem de palavras. Virgílio diz que “os filhos da terra” (i figli de la terra- v. 121), ou os gigantes, teriam vencido os deuses se Anteu tivesse participado da luta. Virgílio diz isso para lisonjeá-lo e fazer o que lhe propõe, isto é, transportá-los para o fundo do nono círculo, lá “onde a frialdade encerra Cocito” (dove Cocito la freddura serra- v.123), o que de fato vem a ocorrer (nessa parte mais baixa do Inferno, onde corre o rio Cocito e impera o frio, e não o calor, estão Lúcifer e Judas). Também usa como argumento o fato de Dante estar vivo e poder retornar ao nosso mundo, promovendo aqui o seu nome (um argumento frequentemente utilizado, como já vimos):

Ancor ti può nel mondo render fama,
ch' el vive, e lunga vita ancor aspetta
se 'nnanzi tempo grazia a sé nol chiama. (v.127-129)

Ele ainda pode no mundo te dar fama/ pois é vivo, e longa vida ainda espera viver,/ se a graça não o chamar antes do tempo.

            Anteu então estendeu as mãos, apanhando Virgílio e logo depois Dante, depondo-os em seguida no fundo do nono círculo. Quando Dante vê aquele vulto imenso inclinar-se sobre ele amedronta-se, pois tem a mesma sensação de quem está debaixo da torre inclinada de Garisenda, em Bolonha,  ao passarem nuvens (a impressão é a de que a torre se movimenta, e não as nuvens):

Qual pare a riguardar la Carisenda
sotto 'l chinato, quando un nuvol vada
sov'r essa sì, ched ella incontro penda:

tal parve Antëo a me stava a bada
di vederlo chinare, e fu tal ora
ch' i' avrei voluto ir per altra strada. (v.136-141)

Como parece a Garisenda, quando vista/ debaixo do lado inclinado ao passarem nuvens,/ parece pender como se fosse cair,
assim me pareceu Anteu, quando/ o vi inclinar-se, e nessa hora/ teria querido ir por outra estrada.

            No Canto há ainda referência aos gigantes Briareu (que Dante deseja ver, mas está muito distante dali), Tizio e Tifeu (lembrados por Virgílio, a quem recorreria, caso Anteu não se dispusesse a transportá-los para o fundo do nono círculo, o último do Inferno).

Anteu- W.Blake
            Qual o sentido para tantas referências a gigantes da mitologia clássica, nesse canto de transição do oitavo para o nono círculo, i.e. da passagem do círculo dos dez tipos de fraude comum (Malebolge) para os da fraude que envolve traição? Para Ciardi, os gigantes corporificam as forças elementares desequilibradas cujas paixões desconhecem as leis morais ou religiosas. São colocados como guardiães do círculo mais profundo do Inferno pela sua natureza de “filhos da terra”, por serem símbolos da condição terrena submetida às paixões bestiais (6). Sua posição, como guardiões dos traidores, é semelhante à das entidades míticas que apareceram antes, a saber, Cérbero, Plutão, Minotauro e Gerion, em relação, respectivamente, aos gulosos, avaros, violentos e fraudulentos, como assinala o Mons. Pinto de Campos (7).

NOTAS

(1) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p. 968
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p. 388
(3) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 308
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p.389
(5) Ciardi, John- “The Inferno” (tradução para o inglês e notas) in “The Norton Anthology of World Masterpieces”. Fifth Continental Edition, p.896
(6) Ciardi, John- “The Inferno”, op cit, p. 893
(7) Dante Alighieri- “Obras Completas”, op cit, v.4, p. 274-275 


Os gigantes- S.Dalí, 1951
Canto XXXI-Botticelli


Anteu- António Carneiro




INFERNO- CANTO XXX



Gustave Doré


            Dante inicia o Canto XXX caracterizando duas situações cruéis, uma em Tebas e outra em Tróia.

            Primeiro, os versos referem-se a Atamante, que a ciumenta Juno -- irada com o envolvimento amoroso de seu marido Júpiter com Sêmele, filha do rei de Tebas -- fez perder o juízo e atirar na rocha um de seus próprios filhos. Também fez a esposa dele, irmã de Sêmele, afogar-se, juntamente com o outro filho do casal. Quanto a Sêmele, ainda conforme a mitologia, ela foi atingida por um raio. De sua união com Júpiter nasceria Baco, o padroeiro daquela cidade-estado grega (1). 

            Em seguida, os versos afirmam que, após a derrota de Troia na guerra com os gregos, a rainha Hécuba foi feita prisioneira e, vendo os filhos mortos, enlouqueceu de dor:

forsenata latrò sì comme canne;
tanto il dolor le fé la mente torta (v. 20-21)

desatinada ladrou como um cão;/ tanto a dor deformou a sua mente
(destaque-se a força expressionista dessa comparação).

            Mas essas duas situações, em Tebas e Troia, não foram piores, diz Dante, do que aquelas representadas pelas duas sombras nuas (como estão sempre os condenados no Inferno) que vê correndo a morder, “como faz/ o porco quando foge da pocilga” (di quel modo/ che ‘l porco quando del porcil si schiude- v.26-27):

L’una giunse a Capocchio, e in sul nodo
del collo l’assannò, sì che, tirando,
grattar li fece il ventre al fondo sodo. (v. 29-31)

Uma delas chegou-se a Capocchio, e o mordeu/ na nuca, atirando-o por terra,/ de tal modo que o fez raspar o ventre no duro solo.

            Trêmulo (pois também não estava livre de ser mordido), o Aretino (i.e., Griffolino d’Arezzo) que acompanhava Capocchio -- ambos personagens do canto anterior --, identifica essa sombra maligna como Gianni Schicchi, “que vai raivoso, dilacerando assim os outros” (e va rabbioso altrui cosi conciando- v. 33). Schicchi, segundo o comentarista, se fez passar por Buoso Donati, para ditar um novo testamento em favor de Simone Donati, sobrinho de Buoso, o mentor da fraude. O que Schicchi ganhou com isso foi herdar a “senhora do rebanho” (la donna de la torma- v.43), uma égua (ou mula) excelente (2). Essa cena, a de Schicchi mordendo Capocchio, é uma das duas mais impactantes do canto XXX (a outra é a do disforme Mestre Adamo, que surge mais adiante).

Adolphe-William Bouguereau, 1850
            O Aretino também identifica, a pedido de Dante, a outra sombra: trata-se de Mirra, “que se tornou/ do pai, fora do justo amor, amiga” (che divenne/ al padre, fuor del dritto amore, amica- v.38-39). Ela, de acordo com a mitologia, se disfarçou de outra mulher para ter uma relação incestuosa com o próprio pai, rei de Chipre. Quando este soube que fora enganado, tentou matá-la mas ela fugiu dele. Depois, os deuses a transformaram numa árvore (mirra).  Da união de Mirra com seu pai nasceu Adonis (esta história, assim como as de Sêmele e de Hécuba, referidas no início, são recontadas por Ovídio nas “Metamorfoses”) (3). 
  
            Dante-autor expressa sua repulsa por esses embusteiros (os que se fazem passar por outras pessoas), comparando-os a porcos (a atitude de Schicchi e a relação incestuosa de Mirra são atos vis, sujos, moralmente, donde a associação ao porco e à pocilga). Concebe-os como condenados enraivecidos que se voltam contra os companheiros, procurando dilacerá-los, como fizeram em vida (passar por outra pessoa significou prejudicar, "dilacerar", a verdadeira).

            As duas sombras raivosas, representantes dos falsificadores de pessoas, ilustram o primeiro dos três tipos de falsificadores referidos neste canto. Os outros dois, apresentados abaixo, são os falsificadores de moedas e os de palavras (falsos testemunhos). A esses devem ser acrescentados os falsificadores de metais do canto anterior (os alquimistas) para chegarmos aos quatro tipos de falsificadores que a décima e última fossa do Malebolge contêm, conforme os cantos XXIX e XXX.

            Na sequência Dante olha para os outros “mal nascidos” (mal nati- v. 48) ali presentes. E diz:

Io vidi un, fatto a guisa di lëuto,
pur ch’ elli avesse avuta l’ anguinaia
tronca da l’ altro che l’ uomo ha forcuto. (v. 49-51)

Vi um que seria um alaúde/se à altura da virilha/ tivesse o corpo cortado.

            Ele é chamado de Mestre Adamo, um falso moedeiro, e sofre de hidropsia, de modo que seu rosto e os membros não têm correspondência com a barriga, inchada desmesuradamente. A doença o torna sedento, fazendo-o manter os lábios sempre abertos, e a lembrança dos regatos de sua terra aumenta o seu suplício. Mas ( por ser rancoroso e vingativo, como outros condenados no Inferno, “donde a caridade é totalmente banida” (4) ), ele não trocaria a vista daqueles que o induziram a cometer seu crime padecendo no Inferno (os Guidi, condes de Romena, uma cidade na região de Casentino, perto de Florença (5) )  nem pela imagem da fonte Branda, que lhe saciaria a sede. Mestre Adamo, que falsificou florins e por isso morreu queimado, preso na estaca, é assim exemplo do terceiro tipo de falsificação, a falsificação de moedas.

            “Mestre” (esse tratamento era dado aos artífices) Adamo, enquanto vivo, tinha sede de moedas e por isso no Inferno terá tal castigo (como se a sua barriga fosse um cofre abarrotado delas). Esse castigo eterno é reservado aos que incorrem no mesmo pecado de Adamo.

Giovanni Stradano
            O quarto tipo é dos que foram falsos nas palavras ou dos que deram falso testemunho. São representados por dois condenados que estão ali, juntos de Mestre Adamo, imóveis, “fumegando como mãos banhadas no inverno” (che fumman come man bagnate ‘l verno- v.92), decorrentes da grande febre que os acomete (esse é seu castigo). Um é a esposa de Putifar (oficial de Faraó, no Egito), recusada por José, que o acusou falsamente ao marido, conforme a Bíblia (Gên, cap. 39); o outro é Sinon, o grego que enganou os troianos, fazendo-os aceitar o cavalo de madeira, onde se escondiam os guerreiros seus conterrâneos. Ou como diz o poema:

L’una è la falsa ch’ accusò Gioseppo;
l’ altr’ è ‘ l falso Sinon greco di Troia:
per febbre aguta gittan tanto leppo. (v. 97-99)

Uma é a falsa que acusou José;/ o outro é o falso Sinon, grego de Troia:/ por febre aguda exalam fumo fétido.

            Mentiras, quando eram vivos, saíram deles, de suas bocas. Agora, um fumo fétido exala de seu corpo febril, como de algo quente no inverno...

            Um dos dois pecadores se sentiu ofendido, talvez pelo modo como foi referido por Mestre Adamo, e lhe vibrou um soco na barriga, que “soou como se fosse um tambor” (Quella sonò come fosse un tamburo;- v. 103), ao que o atingido revidou com um golpe com o braço em seu rosto. Em seguida, os dois ficaram trocando acusações e se depreciando mutuamente. Dante mantém-se atento ao diálogo deles. Mas é censurado por Virgílio, “pois querer ouvir isto é vil desejo” (ché voler ciò udire è bassa voglia- v.148).

            Muitos de nós, hoje em dia, ao assistirmos certos programas de televisão, também somos merecedores da censura de Virgílio...

         
             É interessante notar que Dante tem mais simpatia pelos troianos do que pelos gregos. Toma partido dos primeiros, certamente porque os italianos descendem deles (Eneas e seus companheiros – a quem Virgílio dedicou a “Eneida” – fugiram de Troia para fundar Roma). Dante colocou os gregos Ulisses e Diomedes, heróis da guerra de Troia, no Inferno, no círculo dos “maus conselheiros” (canto XXVI). E neste canto XXX, colocou Sinon na décima fossa do Malebolge, junto com outros “falsificadores de palavras”, como vimos acima.     


NOTAS

(1) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p.964
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p.387
(3) Id., ib., p. 387
(4) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 265
(5) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 387



Canto XXX- Punição dos falsificadores- Priamo della Quercia, 1444-1450




Canto XXX-Homens que se entredevoram- Dalí, 1951