segunda-feira, 21 de setembro de 2009

INFERNO- CANTO XXX



Gustave Doré


            Dante inicia o Canto XXX caracterizando duas situações cruéis, uma em Tebas e outra em Tróia.

            Primeiro, os versos referem-se a Atamante, que a ciumenta Juno -- irada com o envolvimento amoroso de seu marido Júpiter com Sêmele, filha do rei de Tebas -- fez perder o juízo e atirar na rocha um de seus próprios filhos. Também fez a esposa dele, irmã de Sêmele, afogar-se, juntamente com o outro filho do casal. Quanto a Sêmele, ainda conforme a mitologia, ela foi atingida por um raio. De sua união com Júpiter nasceria Baco, o padroeiro daquela cidade-estado grega (1). 

            Em seguida, os versos afirmam que, após a derrota de Troia na guerra com os gregos, a rainha Hécuba foi feita prisioneira e, vendo os filhos mortos, enlouqueceu de dor:

forsenata latrò sì comme canne;
tanto il dolor le fé la mente torta (v. 20-21)

desatinada ladrou como um cão;/ tanto a dor deformou a sua mente
(destaque-se a força expressionista dessa comparação).

            Mas essas duas situações, em Tebas e Troia, não foram piores, diz Dante, do que aquelas representadas pelas duas sombras nuas (como estão sempre os condenados no Inferno) que vê correndo a morder, “como faz/ o porco quando foge da pocilga” (di quel modo/ che ‘l porco quando del porcil si schiude- v.26-27):

L’una giunse a Capocchio, e in sul nodo
del collo l’assannò, sì che, tirando,
grattar li fece il ventre al fondo sodo. (v. 29-31)

Uma delas chegou-se a Capocchio, e o mordeu/ na nuca, atirando-o por terra,/ de tal modo que o fez raspar o ventre no duro solo.

            Trêmulo (pois também não estava livre de ser mordido), o Aretino (i.e., Griffolino d’Arezzo) que acompanhava Capocchio -- ambos personagens do canto anterior --, identifica essa sombra maligna como Gianni Schicchi, “que vai raivoso, dilacerando assim os outros” (e va rabbioso altrui cosi conciando- v. 33). Schicchi, segundo o comentarista, se fez passar por Buoso Donati, para ditar um novo testamento em favor de Simone Donati, sobrinho de Buoso, o mentor da fraude. O que Schicchi ganhou com isso foi herdar a “senhora do rebanho” (la donna de la torma- v.43), uma égua (ou mula) excelente (2). Essa cena, a de Schicchi mordendo Capocchio, é uma das duas mais impactantes do canto XXX (a outra é a do disforme Mestre Adamo, que surge mais adiante).

Adolphe-William Bouguereau, 1850
            O Aretino também identifica, a pedido de Dante, a outra sombra: trata-se de Mirra, “que se tornou/ do pai, fora do justo amor, amiga” (che divenne/ al padre, fuor del dritto amore, amica- v.38-39). Ela, de acordo com a mitologia, se disfarçou de outra mulher para ter uma relação incestuosa com o próprio pai, rei de Chipre. Quando este soube que fora enganado, tentou matá-la mas ela fugiu dele. Depois, os deuses a transformaram numa árvore (mirra).  Da união de Mirra com seu pai nasceu Adonis (esta história, assim como as de Sêmele e de Hécuba, referidas no início, são recontadas por Ovídio nas “Metamorfoses”) (3). 
  
            Dante-autor expressa sua repulsa por esses embusteiros (os que se fazem passar por outras pessoas), comparando-os a porcos (a atitude de Schicchi e a relação incestuosa de Mirra são atos vis, sujos, moralmente, donde a associação ao porco e à pocilga). Concebe-os como condenados enraivecidos que se voltam contra os companheiros, procurando dilacerá-los, como fizeram em vida (passar por outra pessoa significou prejudicar, "dilacerar", a verdadeira).

            As duas sombras raivosas, representantes dos falsificadores de pessoas, ilustram o primeiro dos três tipos de falsificadores referidos neste canto. Os outros dois, apresentados abaixo, são os falsificadores de moedas e os de palavras (falsos testemunhos). A esses devem ser acrescentados os falsificadores de metais do canto anterior (os alquimistas) para chegarmos aos quatro tipos de falsificadores que a décima e última fossa do Malebolge contêm, conforme os cantos XXIX e XXX.

            Na sequência Dante olha para os outros “mal nascidos” (mal nati- v. 48) ali presentes. E diz:

Io vidi un, fatto a guisa di lëuto,
pur ch’ elli avesse avuta l’ anguinaia
tronca da l’ altro che l’ uomo ha forcuto. (v. 49-51)

Vi um que seria um alaúde/se à altura da virilha/ tivesse o corpo cortado.

            Ele é chamado de Mestre Adamo, um falso moedeiro, e sofre de hidropsia, de modo que seu rosto e os membros não têm correspondência com a barriga, inchada desmesuradamente. A doença o torna sedento, fazendo-o manter os lábios sempre abertos, e a lembrança dos regatos de sua terra aumenta o seu suplício. Mas ( por ser rancoroso e vingativo, como outros condenados no Inferno, “donde a caridade é totalmente banida” (4) ), ele não trocaria a vista daqueles que o induziram a cometer seu crime padecendo no Inferno (os Guidi, condes de Romena, uma cidade na região de Casentino, perto de Florença (5) )  nem pela imagem da fonte Branda, que lhe saciaria a sede. Mestre Adamo, que falsificou florins e por isso morreu queimado, preso na estaca, é assim exemplo do terceiro tipo de falsificação, a falsificação de moedas.

            “Mestre” (esse tratamento era dado aos artífices) Adamo, enquanto vivo, tinha sede de moedas e por isso no Inferno terá tal castigo (como se a sua barriga fosse um cofre abarrotado delas). Esse castigo eterno é reservado aos que incorrem no mesmo pecado de Adamo.

Giovanni Stradano
            O quarto tipo é dos que foram falsos nas palavras ou dos que deram falso testemunho. São representados por dois condenados que estão ali, juntos de Mestre Adamo, imóveis, “fumegando como mãos banhadas no inverno” (che fumman come man bagnate ‘l verno- v.92), decorrentes da grande febre que os acomete (esse é seu castigo). Um é a esposa de Putifar (oficial de Faraó, no Egito), recusada por José, que o acusou falsamente ao marido, conforme a Bíblia (Gên, cap. 39); o outro é Sinon, o grego que enganou os troianos, fazendo-os aceitar o cavalo de madeira, onde se escondiam os guerreiros seus conterrâneos. Ou como diz o poema:

L’una è la falsa ch’ accusò Gioseppo;
l’ altr’ è ‘ l falso Sinon greco di Troia:
per febbre aguta gittan tanto leppo. (v. 97-99)

Uma é a falsa que acusou José;/ o outro é o falso Sinon, grego de Troia:/ por febre aguda exalam fumo fétido.

            Mentiras, quando eram vivos, saíram deles, de suas bocas. Agora, um fumo fétido exala de seu corpo febril, como de algo quente no inverno...

            Um dos dois pecadores se sentiu ofendido, talvez pelo modo como foi referido por Mestre Adamo, e lhe vibrou um soco na barriga, que “soou como se fosse um tambor” (Quella sonò come fosse un tamburo;- v. 103), ao que o atingido revidou com um golpe com o braço em seu rosto. Em seguida, os dois ficaram trocando acusações e se depreciando mutuamente. Dante mantém-se atento ao diálogo deles. Mas é censurado por Virgílio, “pois querer ouvir isto é vil desejo” (ché voler ciò udire è bassa voglia- v.148).

            Muitos de nós, hoje em dia, ao assistirmos certos programas de televisão, também somos merecedores da censura de Virgílio...

         
             É interessante notar que Dante tem mais simpatia pelos troianos do que pelos gregos. Toma partido dos primeiros, certamente porque os italianos descendem deles (Eneas e seus companheiros – a quem Virgílio dedicou a “Eneida” – fugiram de Troia para fundar Roma). Dante colocou os gregos Ulisses e Diomedes, heróis da guerra de Troia, no Inferno, no círculo dos “maus conselheiros” (canto XXVI). E neste canto XXX, colocou Sinon na décima fossa do Malebolge, junto com outros “falsificadores de palavras”, como vimos acima.     


NOTAS

(1) Musa, Mark-- "Inferno" (tradução para o inglês, notas e comentários) in "World Masterpieces". Third Edition. Volume I. New York, W.W.Norton & Company Inc., 1973, p.964
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p.387
(3) Id., ib., p. 387
(4) Dante Alighieri- “Obras Completas”, S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- “Inferno”- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- v.4, p. 265
(5) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 387



Canto XXX- Punição dos falsificadores- Priamo della Quercia, 1444-1450




Canto XXX-Homens que se entredevoram- Dalí, 1951


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