quarta-feira, 26 de agosto de 2009

INFERNO- CANTO V





No Canto V, Dante e seu guia visitam o segundo círculo do Inferno, onde estão os luxuriosos. O Inferno possui nove círculos e tem a forma de um funil, estreitando-se à medida que se aproxima do centro da Terra e passa dos pecados menos graves para os mais graves. Essa afirmação permite compreender o sentido dos versos iniciais deste Canto:

Così discesi del cerchio primaio
giù nel secondo, che men loco cinghia,
e tanto più dolor, che punge a guaio (1-3)
(“Assim desci do círculo primeiro/ ao segundo, que área menor cingia,/ maior porém na dor, que punge, fundo”).

Como castigo, as almas dos luxuriosos são transportadas eternamente de um lado para outro, para cima e para baixo, sobre um abismo, pelo vento forte da “borrasca infernal”, girando e debatendo-se nele, a lamentar-se de sua condição. Tal punição corresponde ao modo como esses pecadores (aqui chamados i peccator carnali -v.38) viveram em nosso mundo, arrebatados de um lado para outro pela intensidade das suas paixões. O v.55 menciona explicitamente ao vizio di lussuria dos habitantes do segundo círculo.

O Canto V é um dos mais célebres do “Inferno”. Narra a história trágica de Paolo e Francesca, um amor adulterino da época de Dante, que resultou no assassínio de ambos pelo marido traído, irmão mais velho de Paolo, o qual ainda vivia em 1300 (o ano em que se passa a ação do poema). Mas, diz Francesca no v. 107, “Caïna espera por aquele que nos tirou a vida” (Caina attende chi a vita ci spense). Caína é a área no nono círculo para onde vão os violentos contra seus parentes. Segundo Boccaccio, apud Mons. Pinto de Campos, o casamento entre Paolo e Francesca fora arranjado para superar o conflito entre famílias rivais, a de Guido da Polenta, pai de Francesca, e a dos Malatesta. Embora Giovanni Malatesta fosse "coxo e desancado", Guido o tinha em consideração por ser valoroso e porque viria a ser, após a morte do pai, senhor de Rimini (1).

Logo no início do Canto (v.4 e seg.) temos um exemplo, dentre muitos outros, de como se expressa a imaginação visual de Dante, ao conceber a figura do monstro mitológico Minós como juiz do Inferno (originalmente, na mitologia clássica, Minós era o rei de Creta, “famoso pela sabedoria e severidade de seus julgamentos”, como nos informa nota de Mandelbaum et al. (2), onde também se afirma ser ele, na “Eneida”, juiz do mundo dos mortos). A Minós cabe receber as almas condenadas ao Inferno. Ele é um juiz implacável, "que entende de pecado" (conoscitor de le peccata- v.9). Após ouvir as confissões dos que se apresentam a ele, indica-lhes -- pelo número de vezes que agita a cauda -- o círculo próprio, mais abaixo, correspondente à sua falta.



Por que Minós aparece no Canto V? Certamente porque é aqui que de fato se inicia o Inferno, ou melhor se iniciam os círculos que contêm os seres humanos que cometeram pecados mortais e morreram sem arrepender-se deles, começando pelo da luxúria, que é o menos grave aos olhos de Dante (aliás, nos versos deste Canto, o poeta mostra simpatia e compaixão pelos amantes Paolo e Francesca).

Ao dirigir-se a Dante, sugerindo uma ameaça ("não te iluda a amplidão da porta!": non t'inganni l'ampiezza de l'intrare!- v.20, querendo dizer com isso que é fácil entrar ali, mas difícil sair), Virgílio manda Minós calar-se, afirmando que sua jornada está de acordo com a “vontade lá de cima” (a situação é semelhante àquela do Canto III, quando Virgílio fez calar Caronte, o barqueiro do rio Aqueronte).

No v.28 ocorre uma sinestesia (na realidade a mesma que já apareceu no Canto I, v.60 -- ... là dove ‘l sol tace ) quando Dante diz, referindo-se à escuridão: “Cheguei a um lugar mudo de qualquer luz”, misturando os sentidos da audição e da visão. Esse é o primeiro verso do terceto abaixo, que contêm uma comparação sugestiva do lugar escuro “que mugia” (a impressão causada pelos lamentos daqueles que pecaram pela carne) como o mar “sob a tormenta, quando é assaltado por ventos contrários”:

Io venni in loco d’ogne luce muto,
che mugghia come fa mar per tempesta,
se da contrari venti è combattuto. (v.28-30)

A partir do v. 40, temos duas outras comparações. Os inúmeros luxuriosos (e più di mille ombre- v.67-68), amantes, levados em longas fileiras pelo vento, são comparados aos pássaros, primeiro aos estorvinhos (levados “para cá, para lá, para baixo, para cima”), depois aos grous (estes cantam, as almas condenadas gemem). Para essas almas, “não há mais esperança que os conforte—/ nenhuma esperança de descanso e nenhuma de menor pena”: nulla speranza li conforta mai,/ non che di posa, ma di minor pena (v.44-45). Mais adiante, quando o Canto se concentra em narrar o episódio de Paolo e Francesca, estes serão comparados a pombos, mostrando assim a recorrência, na mente de Dante, da imagem de pássaros associada a esses amantes, condenados a vagar no espaço.

Na sequência, Dante refere-se a diversas personagens (históricas ou míticas) libertinas ou envolvidas em paixões violentas, citadas abaixo, às quais acrescentei uma informação sucinta sobre elas extraída das notas de Mandelbaum et al. A primeira que Dante cita é Semíramis, rainha da Assíria, sucessora de Nino, seu marido, fundador mítico de Níneve (3). A seguir, vem Dido, não mencionada explicitamente, mas identificada de modo indireto nestes versos: “A outra é aquela que se suicidou/ por muito amor, traindo as cinzas de Siqueo” (L'altra è colei che s'ancise amorosa,/ e ruppe fede al cener di Sicheo - v.61-62). Dido, viúva de Siqueo, abandonou o reino de Tiro para fundar Cartago no Norte da África. Ela era apaixonada por Enéas, e cometeu suicídio quando este a deixou para cumprir seu destino, lembrado pelos deuses, de fundador de Roma (4). Citam-se a seguir Cleópatra-- rainha do Egito, amante de Júlio César e depois de Marco Antônio (5)--, Helena, cujo rapto por Páris causou a Guerra de Troia (6), Aquiles, herói grego, que teria sido morto por Páris no templo de Apolo “para onde fora atraído pelas promessas de obter a filha de Príamo, Polixena, se se juntasse aos troianos”(7) de acordo com relatos medievais, diferentes do que diz Homero em sua obra, e Tristão, amante de Isolda, esposa do rei Mark de Cornwall, segundo o romance medieval francês (8).

A partir do v. 73, o Canto se concentra em Paolo e Francesca. Dante dirige-se a eles quando o casal se aproxima, impelido pelo vento, sobre o abismo infernal. A aproximação dos amantes, atendendo ao apelo de Dante, é comparada aos pombos chamados ao “doce ninho” pelo desejo, explicitando-se assim o seu sentido erótico. Virgílio recomenda a Dante que peça para esses amantes se aproximarem em nome de seu amor (v.77-78). Esse é o argumento mais forte a ser utilizado, no caso (em outras ocasiões, como se verá nos próximos Cantos, Dante consegue que os condenados falem com ele prometendo-lhes expandir sua boa fama no mundo dos vivos, quando a ele retornar). A curiosidade de Dante, como salienta Jorge Luís Borges, é saber como Francesca reconheceu que se tratava de amor aquela interação afetiva com o cunhado. Dante lhe diz: "com que e como o Amor permitiu/ que reconhecesses os dúbios anseios?" (a che e come concedette amore/ che conoceste i dubbiosi disiri?- v.119-120). Este, para Borges, é o tema do Canto V: duas pessoas descobrirem que estão apaixonadas, sem saber disso antes (9). Aliás, os três tercetos iniciados pelos versos 100, 103 e 106 iniciam também pela menção ao Amor, considerado como uma pessoa (segundo Mandelbaum et al. esses tercetos lembram as celebrações do amor do século XIII) (10).
Francesca constata assim que Dante deseja conhecer "a primeira raiz" (la prima radice- v.125) de seu amor. Antes de iniciar a sua narrativa ela lhe afirma: “Não há maior dor/ que recordar o tempo feliz/ já na miséria; sabe-o o teu doutor”:

E quella a me: “Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miseria; e ciò sa ‘l tuo dottore.” (v.121-123)

Francesca mostra-se conhecedora da personalidade de Dante pois dirige-se a ele assim: "Ó ser animado pela Graça e pelo Bem" (O animal grazioso e benigno- v.88). Já no Canto II, v.2, a palavra "animal" fora usada como sinônimo de "ser humano", coerente com a concepção filosófica e teológica de Dante, em que o ser humano pertence à classe dos animais, ocupando porém o topo de sua hierarquia. Ela diz que pediria a Deus pela sua paz, se tivesse essa oportunidade, suponho porque reconhece a inquietude de sua alma (Dante-personagem representa o ser humano preocupado com a sua salvação, razão de ele estar inquieto nessa busca do Bem). Mas Francesca não usa a palavra Deus e sim a expressão que aparece nestes versos: "se o rei do universo fosse nosso amigo/ nós pediríamos a ele por tua paz" (se fosse amico il re de l' universo,/ noi pregheremmo lui de la tua pace- v.91-92). Um pouco antes, nos v.80-81, Deus, cujo nome não é pronunciado no Inferno, era referido como consta a seguir, no apelo que Dante faz aos amantes Paolo e Francesca: "Ó almas angustiadas,/ vinde a nós p'ra falar, se Outrem não o proíbe" (O anime affannate,/ venite a noi parlar, s'altri nol niega!).

Francesca assim narra o momento crucial de sua história:

Noi leggiavamo un giorno per diletto
di Lancialotto come amor lo strinse;
soli eravamo e sanza alcun sospetto.

Per più fïate li occhi ci sospinse
quella lettura, e scolorocci il viso;
ma solo un punto fu quel che ci vinse.

Quando leggemmo il disïato riso (v.133)
esser basciato da cotanto amante,
questi, che mai da me non fia diviso,

la bocca mi basciò tutto tremante.
Galeotto fu ’l libro e chi lo scrissi:
quel giorno più non vi leggemmo avante. (v.127-138)

(“Um dia, por passatempo, líamos/ sobre Lancelote—como o amor o subjugara./Estávamos sozinhos, e de nada suspeitando./ Por várias vezes aquela leitura/ fez os nossos olhos se encontrarem, e as faces empalidecerem;/ mas foi um ponto só que nos venceu./ Quando lemos como o riso desejado/ foi beijado pelo amante verdadeiro,/ este, que de mim jamais será apartado, / a boca me beijou todo trêmulo./ Galeoto foi o livro, e quem o escreveu:/ nada mais lemos, nesse dia, adiante.”)




Galeoto é o personagem que aproxima Lancelote de sua amada, Guinevere, esposa do rei Artur, no romance medieval. Segundo John Ciardi, a palavra “Galeoto” além de ser a tradução italiana de Gallehault, também significa “alcovieiro” nessa língua (11). Dante conclui o Canto deste modo:

Mentre che l’uno spirto questo disse,
l’altro piangëa; sì che di pietade
io venni men così com’ io morisse.

E caddi come corpo morto cade. (v.139-142)

(“Enquanto um espírito disse isso/ o outro chorava; de modo que, de dor/ eu desmaiava, como se morresse./ E caí como corpo morto cai.”)

Esse último verso, notável pela sonoridade (aliteração), assemelha-se ao último do Canto III (“e caí como o homem que o sono subjuga”: e caddi come l’uom cui sonno piglia).

NOTAS

1) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.2- S.Paulo: Editora das Américas, s.d.- Tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos- p.151-152
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 353
(3) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, p.353
(4) Id, ib, p.354
(5) Id, ib, p.354
(6) Id, ib, p.354
(7) Id, ib, p.354
(8) Id, ib, p.354
(9) Borges, Jorge Luís- "Sete Noites" in “Obras Completas”, v.III. São Paulo: Globo, 1999- p.235.
(10) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, p 354
(11) Ciardi, John-“Inferno” (tradução para o inglês e notas) in “The Norton Anthology of World Masterpieces”. Fifth Continental Edition. W.W.Norton & Company, p.787. Também o Mons. Pinto de Campos, op cit, p. 231, afirma que “galeotto” significa “alcoviteiro”. Na realidade, afirma que passou a designar todo o alcoviteiro a partir da “Comédia”. Por outro lado, cabe ressaltar, segundo esse mesmo autor, a menção a “riso” no v. 133 em vez de “boca”, que ele considera “um tropo mimosíssimo” (op.cit., p.230). Trata-se, na minha opinião, de um caso de metonímia (definida por Hênio Tavares, op cit, p.386, como “a substituição do sentido de uma palavra pelo de outra que com ela apresenta relação constante”).












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