quinta-feira, 12 de março de 2009

INFERNO- CANTO I

O original italiano, não só deste Canto mas de todos os outros, pode ser ouvido no seguinte web site:  http://etcweb.princeton.edu/dante/pdp/ 

Ilustrações inspiradas pela "Divina Comédia":



Ilustrações de Giovanni Stradano (ou Jan van der Straet) para o Inferno:


Ilustrações de Gustave Doré para o Inferno:
http://www.youtube.com/watch?v=1cQlCHhwXE8 

Aquarelas de William Blake para a "Divina Comédia":
http://www.ideafixa.com/as-aquarelas-de-william-blake-para-a-divina-comedia/




O Canto I (e o poema) inicia com o famoso terceto:
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi retrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarita. (I, 1-3)
(“No meio do caminho de nossa vida/ me encontrei numa selva escura/ pois havia me extraviado do caminho certo” ) (*)

Dante, protagonista da “Comédia”, que a posteridade chamará de “Divina”, inicia sua jornada pelos três reinos do Além -- o Inferno, o Purgatório e o Paraíso -- quando se encontra no meio da vida. Ele contava então 35 anos, pois nasceu em 1265 e a ação do poema se passa em 1300, iniciando em 7 de abril desse ano, uma Quinta-Feira Santa, segundo notas à tradução de Mandelbaum (2), que também informam ser essa idade, para ele, o ponto médio da existência humana, conforme passagem em outra obra sua, “Il Convivio”, baseada numa citação bíblica (Livro dos Salmos).
O poeta, assim, no meio da vida, encontra-se perdido numa selva oscura. Extraviou-se do bom caminho. Após transpor um desfiladeiro perigoso, numa noite aflitiva, povoada de temores no “lago do coração” (lago del cor- v.20), uma metáfora, chega ao pé de uma montanha. Seu medo se abranda ao ver a encosta da montanha já revestida dos primeiros raios de Sol do novo dia. E ele faz esta
comparação:
E come quei che con lena affannata,
uscito fuor del pelago a la riva,
si volge a l’acqua perigliosa e guata,

cosi l’animo mio, ch’ancor fuggiva,
si volse a retro a rimirar lo passo
che non lasciò già mai persona viva (I,22-27)
(“E como aquele que, com respiração cansada,/ fugido do mar, chega à praia,/ volta-se para olhar as águas perigosas,/ assim a minha alma, ainda fugitiva,/ voltou-se para olhar o desfiladeiro/que pessoa viva jamais transpôs” )

Anima-se a escalar a montanha, mas encontra uma onça. Apesar disso, a hora e a “doce estação” (dolce stagione), a primavera, lhe deixam esperançoso; a hora é a do sol nascente:
e 'l sol montava 'n sù con quelle stelle
ch'eran con lui quando l'amor divino
mosse di prima quelle cose belle; (I, 38,40)
(“o sol se levantava agora em associação/ com as mesmas estrelas que o tinham escoltado/ quando o amor divino primeiro moveu essas coisas belas” ).

Aparece depois um leão faminto, que lhe infunde medo, e por fim uma loba insaciável. À vista desta fera, toda a sua esperança de subir a montanha desaparece. Enquanto a loba se aproxima, ameaçadora, ele recua para terreno mais baixo, mais escuro: “me impelira para onde o sol se cala”: mi ripigneva là dove 'l sol tace- v.60, uma sinestesia (3). Dante sente a presença de alguém ali, naquele local mais escuro, o que lhe aumenta o temor. E a sombra lhe fala. Pergunta porque ele não subiu a montanha. Pelas informações que ela lhe dá sobre si mesma, Dante reconhece nessa sombra a presença de Virgílio. Ocorre aqui outro caso de sinestesia (cf. nota à tradução de Mandelbaum (4) ), quando o v. 63 diz: ele era “alguém que parecia indistinto pelo longo silêncio” (chi per lungo silenzio parea fioco), misturando-se no verso os sentidos da audição e da visão.

Ao reconhecer Virgílio, Dante o elogia, considerando-o “fonte/ que jorra tão largo rio de eloqüência” (fonte/ che spandi di parlar sì largo fiume- v.79-80), uma metáfora. Além disso, afirma o seguinte, colocando-se na posição de seu discípulo:
Tu se’ lo mio maestro e ‘l mio autore,
tu se’ solo colui da cu’ io tolsi
lo bello stilo che m’ha fatto onore (I,85-87).
(“Tu és o meu mestre e o meu autor,/ o único de quem meu escrito retirou/ o belo
estilo pelo qual tenho sido honrado”).

No Canto II, Virgílio será referido assim: tu duca, tu segnore e tu maestro ("tu és o guia, o senhor e o mestre") (II, 140)

Note-se, quanto à linguagem utilizada, que Dante o trata por “tu”, mais informal e íntimo do que o tratamento por “vós”. Virgílio também o tratará assim, nos versos (e cantos) subseqüentes.
Dante diz a Virgílio que não subiu a montanha por causa da loba e pede que o poeta lhe ajude a enfrentá-la. Virgílio, ao tomar a palavra (sua manifestação vai quase até o fim do Canto), faz esta crítica à loba:
e ha natura sì malvagia e ria,
che mai non empie la bramosa voglia,
e dopo ‘l pasto ha più fame che pria.

Molti son li animali a cui s’ammoglia,
e più saranno ancora, infin che ‘l veltro
verrà, che la farà morir com doglia. (I, 97-102)
(“sua natureza é tão malvada e suja,/que nunca sacia sua vontade cobiçosa;/ depois de alimentada tem mais fome ainda./ Muitos são os animais com quem se acasala,/ e mais serão ainda, até que chegue o galgo,/ que a fará ter morte dolorosa.”)

O galgo -- "Cão de talhe elevado, pernas longas e musculares, abdômen estreito e focinho afilado, e que se caracteriza pela agilidade e rapidez" (5) -- matará a loba e a mandará de volta para o Inferno. Restaurará a Itália, por quem morreram Cammilla, Eurialo, Turno e Niso (personagens da “Eneida”, que lutaram contra Enéas, o troiano, nas guerras das suas origens míticas). Virgílio afirma que será o guia de Dante (io sarò tua guida- v.113) por lugares eternos, onde ele ouvirá “os uivos do desespero” (ove udirai le disperate strida-v.115) (o Inferno) mas também verá “almas contentes dentro do fogo” (e vederai color che son contenti/ nel foco /.../ v.118-9) (o Purgatório). Depois disso, “uma alma mais digna que ele o guiará” (anima fia a ciò più di me degna- v. 122) (Beatriz), pois o “Imperador” celeste (metáfora usada aqui para designar Deus, cujo nome não é pronunciado no Inferno), que rege em toda parte, não permite que ele entre em “sua Cidade”, por não ter vivido de acordo com sua Lei (Virgílio pertence à era pagã, pois viveu no primeiro século antes de Cristo). Dante, ao falar, pede que ele o guie nessa jornada em que foge dos males terrenos. Virgílio então inicia a viagem, e Dante o segue. Encerra-se assim o enredo do Canto I.

A forma poética adotada por Dante neste Canto, e em toda a “Divina Comédia”, é a chamada “terza rima”, criada por ele mesmo. Compõe-se de versos decassilábicos, encadeados num esquema de rimas do tipo aba-bcb-cdc..., em que o primeiro verso do terceto rima com o terceiro e o segundo fornece a rima para o próximo terceto. A cesura desses versos é, geralmente, apoiada na 6a. e 10a sílabas, como ocorre nos versos citados: Nel mezzo del cammin di nostra vita (I,1) etc. É o chamado “decassílabo heróico”, segundo os manuais de Teoria Literária (1). Mas o “decassílabo provençal” também pode ser usado, com cesura na 4a., 7a. e 10a sílabas, como em: ripresi via per la piaggia diserta (I, 29) (Movendo-me de novo, tentei o declive solitário) assim como o “decassílabo sáfico”, com cesura na 4a., 8a e 10a.: sembiava carca ne la sua magrezza, (I, 50) (sua magreza era só anseio). Essas são características formais comuns a todos os Cantos do poema, cujo tamanho é, em geral, de 140 ou 150 versos.

No Canto I, o diálogo entre Dante e Virgílio abrange 71 dos 136 versos do Canto. Essa é outra característica formal comum aos Cantos. Eles geralmente se baseiam em diálogos, mantidos entre Dante e seu mestre, ou com alguma alma que encontram pelo caminho. O poema, uma narrativa dramática, é afinal uma “commedia”, que tem esse nome porque acaba bem, ao contrário do que ocorre na tragédia.

Até aqui vimos o que diz, resumidamente, o Canto I. Qual é o seu sentido?
O Canto introduz o leitor no universo da obra, que se propõe a ser um relato da viagem insólita de um homem, ainda vivo, pelos três reinos do Além, em conformidade com a concepção da religião católica. Esse homem é Dante mesmo, autor e protagonista do seu poema. A jornada por esses mundos é na realidade uma alegoria da sua desejada ascensão espiritual, após um balanço do passado feito no meio da vida, em que constata estar levando vida pecaminosa, extraviado do bom caminho, aquele que leva à salvação da alma. Para alcançar o Paraíso é preciso que ele passe primeiro pelo Inferno (reconhecendo a existência dos pecados) e depois pelo Purgatório (onde se verifica o seu arrependimento), sempre guiado por Virgílio, o poeta latino, chamado no v.89 de sábio (“famoso saggio”), que representa a Razão humana no poema. Por isso ele não poderá guiá-lo até o Paraíso, papel que será atribuído a Beatriz, símbolo da Fé , como se verá adiante, pois para o católico Dante a salvação não é alcançada apenas pela Razão.

A “Comédia” faz extenso uso das alegorias (6). E o Canto I do Inferno, que nos introduz a todo o poema, é justamente o mais alegórico. O poeta, no meio do caminho da vida (a vida é um caminho), se encontra extraviado da via eticamente correta, verdadeira (diritta via- v.3; verace via- v.12). Encontra-se na selva oscura-v.2 (ou “selva selvagem áspera e densa”: selva selvaggia e aspra e forte- v.5 -- notar aí o polissíndeto-- ou selva amarga: selva amara- v.7) da vida pecaminosa, quando se depara com a sombra de Virgílio, que o guiará a partir de então, possibilitando a Dante avançar em sua jornada de modo a evitar as três feras que o ameaçam-- uma onça, um leão e uma loba, impedindo-o de escalar a montanha, imagem da ascensão espiritual almejada pelo poeta (“/.../ montanha do deleite, que é origem e causa de toda alegria”: /.../ dilettoso monte/ ch’è principio e cagion di tutta gioia- v.77-78) visando a salvação. Ele se sente atraído a subi-la, quando suas encostas estão iluminadas pelo Sol (encostas “revestidas já dos raios do planeta/ que conduz direito os homens por todos os caminhos”— vestite già de’ raggi del pianeta/ che mena dritto altrui per ogne calle- v.17-18) o qual já anuncia o novo dia. O Sol é fonte de luz, esclarecimento, é Deus. Naturalmente a escuridão está associada ao vício e à ignorância.

As três feras citadas simbolizam, respectivamente, os pecados punidos nas três divisões em que se agrupam os nove círculos do Inferno, onde estão os que pecaram pela incontinência (círculos 2º ao 5º), os violentos (círculo 7º) e os fraudulentos (círculos 8º e 9º). A classificação dos pecados de Dante, exposta no Canto XI, baseia-se na Ética do “mestre dos homens que sabem” (/.../ maestro di color che sanno- IV, 131), Aristóteles. Mas também representam, de acordo com a tradição, a luxúria, a soberba (responsável pela situação conflituosa da Itália de Dante, decorrente da rivalidade de suas principais famílias) e a avareza, representada pela loba. A onça tem “pele manchada” (pel macolato- v.33), “pele graciosa” (gaetta pelle- v.42). O soberbo leão, no v.47, tem a “cabeça erguida” (testa alta) e “fome voraz” (rabbiose fame).
Mas é sobre a loba que Dante se estende mais em sua crítica. Ela é o maior obstáculo que ele enfrenta no seu caminho para Deus, impelindo-o “para onde o sol não fala” (v.60), i.e. para a escuridão. Também o impede de escalar o dilettoso monte... A loba se destaca pela sua magrezza- v.50 (v.50), “vontade cobiçosa” (bramosa voglia- v.98). Atemoriza muito Dante. Sua natureza é má, “depois de alimentada tem mais fome ainda” (e dopo 'l pasto ha più fame che pria- v.99) etc (cf. os versos citados acima).

Dante usa o expediente sonoro da aliteração no nome das três feras- lonza, leone, lupa, cuja consoante inicial (consoante líquida) é a mesma de Lúcifer, não por acaso, certamente (cf. nota à tradução de Mandelbaum) (10). Aliás, no v. 5 a expressão selva selvaggia também contém uma aliteração, enfatizando a “selva” alegórica da vida pecaminosa em que Dante se encontra.



O galgo (veltro) expressa a esperança do poeta pela vinda de alguém que mudará radicalmente a situação da Itália de seu tempo. Ele é assim caracterizado: “não se alimentará de terra ou moeda, como a loba, “mas de sabedoria, amor e virtude” (Questi non ciberà terra né peltro,/ ma sapïenza, amore e virtute- v.103-104). Quem seja ele é assunto controvertido entre os intérpretes. As notas à tradução de Mandelbaum (7) citam as várias possibilidades aventadas. Ele poderia ser Cangrande della Scalla, protetor do Dante exilado, pois Feltre e Montefeltro eram os limites de seus domínios; ou um outro líder político, entendendo “feltro” como o forro das urnas em que depositavam seus votos os eleitores de então. Os partidários dessa interpretação traduzem essa palavra no v.105 com letras minúsculas: “o seu local de nascimento será entre dois feltros” (e sua nazion sarà tra feltro e feltro). O Mons. Joaquim Pinto de Campos vê no galgo não um líder temporal da época (Cangrande ou outro dos nomes aventados pelos estudiosos- Henrique de Luxemburgo, Ugoccione della Faggiola), não um homem vivo mas um espírito, um santo pontífice, do reino que não é deste mundo. Assim, o galgo representaria o papa Bento XI, que também nasceu entre Feltro e Montefeltro e foi envenenado em 1304 pelos partidários de Felipe o Belo, rei de França. Ele imporia a civilização sobre a barbárie. O mesmo autor entende “feltros”, de acordo com antigos comentadores, como “os céus”. “O Poeta, pois, quis significar que a nação do Veltro era entre os céus, e a terra, era o mundo /.../” (8). Aliás, Vasco Graça Moura assim traduz o v. 105 antes citado: “e seu país será de céu a céu” (9).

O galgo matará a loba e a mandará de volta para o Inferno, “de onde foi expelida pela inveja primeira” (là onde 'nvidia prima dipartilla- v.111), i.e., pela inveja de Lúcifer, no princípio do mundo, com relação ao homem: “Lúcifer, invejando a felicidade do homem destinado a sucedê-lo na glória que havia perdido, por sua rebelião, tentou os nossos primeiros pais, da transgressão dos quais nasceu a avareza, e os outros vícios, de que ela é raiz”, nas palavras do referido Mons. Pinto de Campos (10).

Para concluir, devo lembrar que o número 3, e seus múltiplos desempenham um papel importante no poema. A “Divina Comédia” é composta de três partes-- Inferno, Purgatório e Paraíso-- cada uma delas formada por 33 Cantos. Mas o Inferno possui 34 Cantos, justamente por causa deste canto introdutório. Além disso, o poema adota a “terza rima”, com estrofe de três versos, e cada uma de suas partes possui nove subdivisões. Por aí se vê que a cosmovisão religiosa de Dante, fundada em Deus-- que não é um mas três (a Santíssima Trindade) -- está associada também à tradição esotérica...
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(*) A tradução em português, que se baseia nos autores citados nas Notas aos comentários dos diversos Cantos, não tem a pretensão de estabelecer um equivalente poético em nossa língua mas tão somente indicar o que dizem os versos originais. A estes se dará absoluta prioridade neste trabalho, a fim de se levar sempre em conta a sua (bela) sonoridade, que é intraduzível.


NOTAS

(1) Cf por exemplo Tavares, Hênio—“Teoria Literária”- 4ª. ed.. Belo Horizonte: Editora Bernardo Álvares S.A., 1969- p.203-204
(2) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum and Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books,1982- p. 344
(3) A sinestesia é definida por Hênio Tavares, op cit., p.233, como “a evocação de impressões sensoriais pela palavra”, termo que pode abranger também “a transposição dos sentidos, que se misturam“, caso ilustrado pelo autor com o poema “A voz dos aromas” de Martins Fontes
(4) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 345
(5) “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”. 2a ed., rev. e aum.- Nova Fronteira, 1986, p. 830.
(6) Alegoria, segundo Hênio Tavares, op. cit., p. 386, “É uma sequência de metáforas, ou seja, a exposição do pensamento ou da emoção sob ampla forma tropológica e indireta, pela qual se representa um objeto para significar outro./.../ Uma figura de mulher, com uma balança numa das mãos e uma espada na outra, é a alegoria de Têmis, ou seja, a Justiça.” O mesmo autor ainda define “metáfora” como “uma comparação elíptica” citando como exemplo o verso de Gonçalves Dias-- “A vida é combate”, o qual se transforma em “comparação” (ou símile) se for assim expresso: “A vida é como combate”.
(7) “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”, op cit, p. 346-347
(8) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.1- São Paulo: Edit das Américas, s.d.- Inferno- tradução em prosa, introdução e comentários pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos. “Introdução ao Canto 1º”, p. 1-73 (cf. especialmente p.60-62)
(9) Dante Alighieri- “A Divina Comédia”. Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. São Paulo: Landmark, 2005, p.37
(10) Dante Alighieri- “Obras Completas”, v.1- Edit das Américas, op cit., pp. 143, 134 e 138 (“Comentários ao Canto 1º”)











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